Outro dia, entre uma xícara de chá quase fria e uma tentativa frustrada de escrever um parágrafo decente — e escrever com sono, vamos combinar, é um tipo de esporte radical que desafia até os mais ousados — resolvi descer pra pegar uma encomenda na portaria. Eram aquelas horas esquisitas do dia em que o tempo parece se arrastar, e o corpo pede descanso, mas a mente insiste em querer produzir.
Apertei o botão do elevador e esperei. E esperei. E esperei mais um pouco. No meu prédio, isso é quase um ritual. Já me acostumei a pensar na demora do elevador como uma espécie de teste de paciência, um lembrete diário de que nem tudo está no meu controle.
Quando a porta finalmente se abriu — com aquele som meio cansado que parece dizer “demorei, mas cheguei” — lá estavam três vizinhos: um senhor de boina marrom, com olhos atentos e um ar de quem já viveu muitas histórias; uma senhora com uma sacola de pão ainda quente, exalando um cheiro que dava vontade de sair atrás de manteiga; e um garotinho de camiseta laranja segurando com firmeza um boneco do Buzz Lightyear.
Entrei, apertei o botão do térreo — como todos os outros já tinham feito — e nos encolhemos como peças de tetris tentando caber no mesmo espaço. Aquele tipo de silêncio que não é desconfortável, mas sim prático. Todo mundo ali só queria chegar ao seu destino sem muito alarde.
O silêncio durou exatamente dois andares.
Foi quando o garotinho virou pro senhor da boina e, com toda a naturalidade e confiança que só uma criança tem, disse:
— Sabia que meu boneco é do espaço? Ele voa e tudo. Quer ver?
O senhor poderia ter sorrido e soltado um “ah, que legal”, como tantos adultos fazem. Mas não. Ele respondeu com uma seriedade divertida:
— Sério? O meu neto também tem um igual. Mas o dele perdeu o capacete na lavanderia… uma tragédia espacial.
E aí… pronto. Como se alguém tivesse apertado um botão invisível que ligava memórias.
A senhora com o pão entrou na conversa, falando de como o neto dela usava uma fronha como capa de super-herói. Ela riu enquanto contava que certa vez ele tentou pular do sofá achando que podia voar. O garotinho, empolgado, respondeu que já fez um foguete com rolo de papel higiênico, e que seu boneco já “foi pra lua e voltou duas vezes”.
E eu? Eu fiquei ali, sorrindo com o canto dos olhos, absorvendo cada detalhe como se estivesse numa peça de teatro improvisada. Aquele elevador, apertado e lento, tinha se transformado numa sala de espera de memórias, dessas que a gente não programa, mas que ficam guardadas num canto quente do coração.
Foi nesse momento que percebi o quanto pequenas pausas — aquelas que a gente costuma desprezar ou ignorar — podem ser preciosas. Estamos sempre correndo, muitas vezes de cabeça baixa, com o celular na mão, o fone no ouvido, os olhos grudados em telas. E, sem perceber, deixamos de enxergar o que está ao nosso redor: pessoas, histórias, encontros.
Talvez tudo o que a gente precise, de vez em quando, seja de um elevador lento e um boneco do espaço pra lembrar que ainda há mágica no cotidiano.
Quando chegamos ao térreo, ninguém teve pressa pra sair. O garotinho apertou mais forte o boneco, como quem sabe que teve um momento especial. A senhora ajeitou a sacola com cuidado, e o senhor de boina trocou um aceno discreto comigo antes de seguir seu caminho. Eu mesma demorei alguns segundos a mais pra sair, como quem quer guardar melhor a cena antes que ela se dissolva na rotina.
Voltei pro apartamento com a encomenda na mão e o coração um pouco mais leve. Não sei ao certo o que me tocou mais: a espontaneidade do garotinho, a delicadeza das memórias compartilhadas ou a sensação de pertencimento naquele momento tão simples. Talvez tudo isso junto.
E aí me peguei pensando em quantas vezes deixamos passar cenas assim por estarmos ocupados demais com o que vem depois. Como se só os grandes momentos merecessem atenção — e os pequenos fossem apenas intervalos. Mas, na verdade, são justamente esses “intervalos” que nos lembram de quem somos.
De volta à escrivaninha, o parágrafo que eu estava tentando escrever já não parecia tão difícil. A cena do elevador me inspirou mais do que qualquer esforço forçado poderia. E, de repente, o texto fluiu. Porque, às vezes, tudo o que a gente precisa pra escrever — ou viver — melhor, é de um instante real, desses que aquecem por dentro.
Então, se um dia o elevador demorar, ou a fila estiver longa, ou o ônibus atrasar… respira. Pode ser que, nesse meio-tempo, algo especial aconteça. Uma conversa, um sorriso, um olhar que se cruza. Uma memória nova, quem sabe.
Afinal, a vida também acontece nos andares intermediários.
E você? Já teve um desses encontros inesperados que te fizeram desacelerar e olhar diferente pra rotina? Se sim, guarda com carinho. Se não, fica de olho. Eles costumam aparecer quando a gente menos espera.



