Quando as palavras viram curativo (e os objetos viram abraço)

Hoje o dia começou esquisito — daqueles em que tudo parece um pouco fora de lugar. A aula de metodologia na faculdade virou uma maratona de termos que eu mal consigo pronunciar, muito menos aplicar; o trabalho me cobrou três prazos simultâneos; meu café esfriou duas vezes; e, como cereja do bolo (ou melhor, cereja do caos), perdi o ônibus bem na porta. Voltei pra casa com a cabeça latejando, sentindo o peso de cada tarefa não concluída girar como roupas em máquina de lavar: barulhento, repetitivo, sem pausa.

Quando abri a porta do meu quarto/escritório, a primeira coisa que vi foi meu computador esperando, com a tela ainda escura, mas pronta para me ouvir. Suspirei aquele suspiro que a gente solta pra não explodir, larguei a mochila no chão e sentei.
Antes de encostar nos arquivos, fiz o antigo ritual que sempre me salva: ajeitar os pequenos objetos que moram ao lado do teclado. Eles não estão ali por acaso. São uma espécie de linha de costura para dias desfiados. Cada um guarda uma memória boa ou um lembrete de que existe vida além dos boletos e das planilhas.

1. A xícara desbotada de estrelas

Ganhei da minha irmã no meu aniversário de 15 anos — época em que eu prometia que, quando crescesse, escreveria histórias que tocassem o universo inteiro. A alça tem uma trinca minúscula, mas eu não troco por nada. Hoje, enchi com chá de camomila e mel. O primeiro gole desceu como feriado inesperado. Senti o calor no peito e fechei os olhos por três segundos: comprimento oficial entre mim e o dia, como quem diz “não vou desistir de você”.

2. A pedra lisa da praia de Itacaré

Parece só um pedacinho de granito, mas quando a deslizo pelos dedos lembro do vento salgado daquele verão em que fiquei duas horas observando o mar e escrevendo versos péssimos, feliz da vida por escrevê-los. A pedra mora ao lado do mouse — peso suave para meus devaneios. Nessas horas descubro que memória também tem textura: fria, polida e, de algum jeito, confortante.

3. A Polaroid meio apagada

Na foto, minha mãe tenta ensinar meu pai a dançar forró na sala. Não existe legenda melhor contra o perfeccionismo: duas pessoas rindo de si mesmas, trocando passos atrapalhados e ainda assim lindos. Coloquei a Polaroid inclinada contra a base do monitor. Quando fico travada num parágrafo, olho para eles e lembro que errar o passo também faz parte da coreografia.

4. O caderninho de capa turquesa

Pequeno, portátil, com folhas já um pouco amareladas. Nele anoto frases soltas, títulos que talvez nunca virem livros, diálogos que escuto em filas de padaria. Hoje escrevi: “Resgatar o que faz pulsar”. Acho que foi um bilhete de mim para mim. Fechei o caderno e empurrei levemente na direção da xícara — como quem coloca dois amigos lado a lado para se fazerem companhia.

5. O lápis azul-oceano mordido na ponta

Tenho um hábito antigo de mastigar lápis quando estou nervosa (dentista desaprova, ansiedade agradece). Não uso para escrever — digito mais rápido que rascunho à mão —, mas gosto de girá-lo entre os dedos. Azul é cor de mergulho. E, em dias assim, mergulhar nas palavras é meu jeito favorito de chegar à superfície.


Enfim, com o “altar” das miudezas organizado, abri um novo documento e permiti que a frustração virasse matéria-prima. A primeira frase saiu ainda amarga: “Hoje quase desisti de mim.” Não apaguei. Às vezes a ferida precisa ser nomeada antes de receber curativo. Continuei: escrevi sobre o ônibus perdido, sobre a aula que não entendi, sobre o café frio. Escrevi até sentir o pulso do texto mudar. De repente, o que era reclamação virou confissão. Depois, pergunta. Por fim, possibilidade.

Percebi que, enquanto digitava, o ruído na cabeça diminuía. Não sumia por completo — ansiedade não tem botão de liga/desliga —, mas ganhava volume de sussurro. Cada palavra trazia ordem ao caos, como se montar frases fosse dobrar roupas espalhadas pela cama.

Fiquei pensando em como a escrita faz isso: transforma dor em parágrafo, medo em metáfora, cansaço em vírgula de respiro. A página não resolve a vida, mas amplia espaço pra vida caber. É quase mágica, mas uma mágica que exige trabalho — digitar, apagar, reescrever, reler, entender. Mesmo assim, é menos pesado que carregar tudo quieta.

Quando dei por mim, o texto tinha quase mil palavras (olha a meta aí, cumprida sem perceber). E junto com ele, um alívio que só quem escreve conhece: a sensação de ter tirado uma mochila invisível das costas.

Antes de fechar o arquivo, bebi o último gole de chá — ainda morno — e deslizei a pedra de Itacaré pelo tampo da mesa, como quem sela um pacto silencioso: amanhã talvez seja caótico de novo, mas vou ter palavras e pequenos objetos para me lembrar do que importa.

Acertei a Polaroid, fechei o caderninho e deixei o lápis azul-oceano atravessado sobre o teclado — rabisco de quem diz “até já”.


E você? Quais objetos ficam perto de você quando o mundo aperta? Que pequenas coisas te lembram de respirar fundo?

Me conta nos comentários. Vai ser bonito descobrir os altares portáteis que cada um monta pra curar as próprias dores.

Com carinho (e um chá quase frio),
Meli 🍃

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