Talvez seja autismo, mas talvez seja só jeito de sentir

Hoje eu queria trazer um tema delicado que pra mim é difícil de compartilhar com outras pessoas.

Não porque eu tenho vergonha — ou talvez tenha, um pouco —, mas porque é algo tão silencioso que às vezes nem eu sei explicar direito. É como quando a gente sente que tem algo diferente na forma como vê o mundo, mas isso nunca tem nome, nunca tem lugar. Só existe ali, em silêncio, dentro da gente.

Durante muito tempo, eu achei que era só uma menina distraída, esquisita, que se escondia atrás dos livros, dos desenhos, das histórias inventadas. Eu era aquela criança que observava mais do que falava, que demorava a entender regras sociais, que ficava desconfortável com barulhos altos, com mudanças inesperadas, com grupos grandes de pessoas. Só que ninguém percebia, porque eu “ia bem na escola”, “era educada”, “não dava trabalho”.

E é por isso que hoje eu quero falar sobre autismo em meninas — ou melhor, sobre a forma como eu mesma, a Melissa, fui entendendo aos poucos que havia algo em mim que precisava de um olhar mais gentil, mais atento, mais verdadeiro.

Eu aprendi a me adaptar cedo. A observar como as outras pessoas agiam e tentar copiar. Sorrir na hora certa, fazer perguntas certas, esconder o cansaço depois de interagir com muita gente. Eu pensava que todo mundo se sentia assim, só que lidava melhor. Então, o problema devia ser comigo, né?

Mas com o tempo, fui percebendo que havia um padrão. Uma exaustão silenciosa depois de encontros sociais. Uma confusão constante com olhares, entonações, piadas sutis. Uma vontade de desaparecer nos meus próprios pensamentos. E, mesmo assim, ninguém via. Porque eu sempre dava um jeito de parecer “ok”.

Isso é algo muito comum em meninas autistas. A gente aprende a camuflar. A se moldar tanto pra caber no mundo que, um dia, já não sabe mais quem é de verdade. O que é nosso e o que é só reflexo do que os outros esperavam.

E por isso eu me sinto tão próxima da Bárbara, sabe? Não que ela seja exatamente como eu, mas tem algo no jeito dela de estar no mundo, de observar com calma, de dizer pouco e sentir muito… que me lembra esse lugar silencioso de dentro. Ela escuta mais do que fala. E às vezes, isso é tudo o que alguém precisa pra se sentir acolhido.


Quando eu estava na escola, eu era muito oito ou oitenta. Às vezes queria me enturmar, fazer parte de tudo. Outras, queria sumir no fundo da sala, invisível. Mas, no fundo, acho que a minha característica mais marcante foi essa capacidade — ou necessidade — de me camuflar diante das outras pessoas.

Eu era muito sozinha. E a coisa que eu mais queria era ter amigos. O problema é que eu não me encaixava naquele grupo de pessoas. Era como se elas falassem uma língua que eu não entendia completamente. Eu ficava olhando, observando os jeitos, as falas, os risos… e me perguntava: “O que elas têm que eu não tenho?”

Enquanto isso, eu gostava de desenhar, escrever, escutar música, qualquer coisa que me levasse pra um mundo só meu. A expressão “um peixe fora d’água” nunca fez tanto sentido. Porque, ao mesmo tempo em que eu desejava estar cercada de gente, só de pensar nisso eu já me sentia cansada. Era um paradoxo constante. Vontade de pertencer, medo de não suportar.

Acredito que, do lado de fora, as pessoas me viam de um jeito diferente. Ok, uma menina loira, bonita, tímida — mas e daí? Nada muito fora do padrão, né? E, ainda assim, parecia que eu não fazia falta. Como se minha presença ou ausência não alterasse nada. Isso me doía, porque, mesmo sem falar muito, eu sentia tudo com muita intensidade. E acho que é por isso que me conecto tanto com a Bárbara, essa personagem que escrevi com tanto carinho. Ela sente demais. Diz pouco, mas sente tudo. Pra mim, ela é a personagem com a maior profundidade emocional.

Teve uma vez em que eu conheci um menino. Um menino que, sem saber, me inspirou a criar o Carlos. Ele era gentil, educado, andava sempre meio calado, e desenhava com um capricho que me deixava encantada. Os professores gostavam muito dele. Ele era bom em matemática, tentava conversar com todo mundo de forma amigável, mesmo quando isso parecia difícil. Eu percebia o esforço. Nem sempre dava certo, mas ele nunca faltava com respeito.

Os outros meninos faziam algumas brincadeiras de mau gosto com ele. Mas parecia que ele tinha uma espécie de escudo. Ele não se deixava abalar com facilidade. Talvez eu esteja falando bem demais, idealizando um pouco — pode ser. Mas é como eu me lembro. E o que ficou em mim, de verdade, foi esse sentimento de que ele era especial. Porque, de alguma forma, ele também parecia não se encaixar. Mas ao invés de tentar mudar pra caber, ele seguia sendo quem era.

Fomos amigos por um tempo. Quando ele foi embora, a saudade veio como uma onda. E, olhando pra trás, acho que eu estava apaixonada. Não daquele jeito de filme, com cenas grandiosas, mas com aquela admiração silenciosa que fica morando dentro da gente. Um carinho calmo. Uma vontade de ter mais pessoas como ele por perto.

Hoje eu vejo que o que me marcou nessa história não foi só o afeto. Foi perceber que, mesmo sendo diferentes, a gente dividia um mesmo tipo de olhar pro mundo. A mesma sensação de estar um passo fora do compasso. E isso… isso foi muito precioso pra mim.


Desde então, eu desconfiei que poderia estar no espectro autista. Mas quer saber de uma coisa? Pra mim, isso pouco importa. De verdade. Nunca fiz um diagnóstico oficial, e talvez nunca faça. Não porque isso não seja importante — pra algumas pessoas é, e muito —, mas porque no meu caso, só de começar a entender melhor quem eu sou, as peças começaram a se encaixar.

Não tenho ideia se aquele menino da escola também se encaixa no espectro, mas gosto de acreditar que sim. Gosto de imaginar que, mesmo sem sabermos, a gente se reconheceu no silêncio um do outro. Nas pausas, na calma, nas trocas pequenas e sinceras. Às vezes, não precisa de muito pra criar uma conexão que vale uma vida inteira.

Com o tempo, percebi que algumas pessoas dizem estar no espectro como uma tentativa de se encaixar em algum lugar. Confesso que eu já fiz isso também. Já tentei usar rótulos como uma forma de me explicar, me justificar, me proteger. Mas, mesmo assim, ainda me sentia deslocada. Porque a verdade é que nenhum nome ou categoria dá conta da complexidade de quem a gente é.

Hoje eu penso diferente. As pessoas vão gostar de você pelo que você é — pelos seus gestos gentis, pelo seu jeito de escutar o mundo, pela forma como você cuida, pensa, cria, sente — e não por causa de um diagnóstico ou de um rótulo qualquer. Isso vale pra mim, pra você, pra todo mundo.

Se tem uma coisa que eu queria deixar como mensagem final, é isso: pessoas autistas não são todas iguais. E, aliás, ninguém é. Mas há algo muito bonito em reconhecer os jeitos diferentes de existir no mundo. Às vezes mais quietos, às vezes mais intensos. Às vezes olhando de fora, mas sentindo tudo por dentro.

No fim das contas, seja quem você é. Com ou sem nome pra isso. O mundo precisa da sua maneira única de ver e de sentir as coisas. E se algum dia você se sentir só, saiba que você não está. Tem muita gente aí fora tentando se encaixar em algum lugar.

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