Essa noite, eu tive um sonho simples. Daqueles que a gente quase esquece quando acorda, mas que ficam ali, escondidos no fundo do peito, como um bilhetinho dobrado deixado por alguém que gosta muito da gente.
No sonho, eu estava sentada dentro de um barquinho de papel. Era um daqueles que a gente aprende a fazer com dobradura na escola. Só que ele era grande o suficiente pra caber uma versão pequenininha de mim. E ali estava eu, navegando devagar por um lago sereno, cercado de árvores silenciosas e um céu calmo.
A água era tão tranquila que mais parecia um espelho. Nada acontecia — e, ao mesmo tempo, tudo estava acontecendo. O barquinho não afundava, não se rasgava, nem sequer ameaçava virar. Ele simplesmente flutuava, como se o mundo inteiro estivesse torcendo pra que ele seguisse firme.
E eu também.
Acho que, naquele momento, tudo estava certo. Tudo estava em paz. Não tinha pressa. Não tinha destino. Só o barquinho, o lago e o vento certo soprando devagarinho.
Às vezes, a gente tem essa ideia de que só os grandes acontecimentos movimentam a vida. Que é preciso correr, conquistar, marcar presença, fazer algo importante. Mas esse barquinho de papel não precisava de motor, nem de remos, nem de força. Ele só precisava de leveza. E de tempo. E de confiança naquele silêncio que quase nunca sabemos escutar.
Quando acordei, senti uma vontade imensa de voltar pra ele. Mas o que me esperava era uma segunda-feira comum — daquelas com despertador, compromissos e um monte de coisas que nem sempre fazem sentido.
Mesmo assim, fiquei pensando no sonho. Voltei mentalmente pro lago. Pro som das árvores que não faziam barulho nenhum. E percebi que o barquinho de papel talvez seja uma metáfora pra tudo aquilo que é frágil, mas mesmo assim continua. Tudo aquilo que só se mantém de pé com cuidado, com pausa, com presença.
Esse barquinho me lembrou que a vida também pode ser assim: simples, leve, silenciosa. Que nem sempre é no barulho que moram as respostas. Que tem dias em que o mais revolucionário é desacelerar. E que, às vezes, as coisas mais importantes se revelam só quando a gente desocupa um pouco o coração.
Tenho pensado muito sobre o que significa continuar mesmo quando não se sabe pra onde. O barquinho do sonho não tinha um destino claro. Ele simplesmente ia. E talvez isso baste, sabe? Talvez viver não seja sobre chegar, mas sobre continuar flutuando, mesmo sem saber direito pra onde o vento vai levar.
Se você estiver lendo isso no meio de uma rotina puxada ou de um momento em que tudo parece demais, eu queria te convidar a procurar o seu barquinho. Talvez ele esteja escondido numa memória da infância, num café tomado com calma, num pedaço de céu entre prédios, numa música antiga que te abraça sem palavras. Ou talvez ele esteja em você, esperando apenas um pouco de silêncio pra se revelar.
Nem tudo precisa ser urgente. Nem tudo precisa ser resolvido agora. Às vezes, a resposta está em aceitar o presente como ele é, mesmo que seja confuso ou incompleto. O barquinho não questionava o lago. Ele apenas confiava.
A vida pode ser exigente, mas ela também sabe sussurrar. E eu acho que hoje ela me sussurrou isso: que a gente não precisa ser mais forte do que é, nem fazer mais do que pode. Que dá pra viver com doçura. Com delicadeza. Com respiro.
E tudo bem se você ainda não tiver encontrado o seu barquinho. Às vezes ele aparece disfarçado de outra coisa: uma caminhada em silêncio, uma folha que cai devagar, uma frase que alguém disse e que ficou com você. Esses pequenos momentos também são embarcações. E também levam a gente pra algum lugar bonito — mesmo que a gente ainda não entenda qual.
Esse texto é só um barquinho de papel também. Frágil, mas cheio de intenção. Escrito no ritmo de quem acredita que palavras podem ser vento. E que, mesmo que não resolvam tudo, elas podem, sim, embalar o coração de alguém por uns instantes.
Espero que ele flutue até você exatamente como o barquinho do sonho. Sem pressa. Sem fazer barulho demais. Apenas chegando, suavemente, como quem sabe que não precisa ser grandioso pra ser verdadeiro.
E que, se te tocar, você encontre um pedacinho de lago dentro do seu dia também. Um lugar onde tudo pode parar por um momento. Onde você pode respirar, ser só você, e lembrar que, mesmo nos dias mais difíceis, ainda é possível flutuar.
No fundo, acho que é isso que o sonho queria me dizer. Que mesmo o mais frágil dos barquinhos pode atravessar um lago inteiro se tiver tempo, leveza e alguém que acredite que ele pode. E que nós também podemos.



