A xícara quebrada que virou lembrança

Era uma segunda-feira comum. Daquelas em que a rotina parece repetir os mesmos passos, os mesmos cheiros, os mesmos silêncios. Eu tinha acordado mais cedo do que o costume, talvez porque o corpo pressentisse que o dia traria algo diferente. Ou talvez apenas porque o sol entrou pela fresta da janela com mais coragem.

Desci pra cozinha ainda meio sonolenta, como quem caminha dentro de um sonho que ainda não acabou. Fui direto pra cafeteira. Enquanto o cheiro do café recém-passado preenchia o ar, abri o armário e peguei minha xícara preferida. Aquela azul-clara, com uma pequena rachadura na alça e uma linha prateada em volta da borda. Não era bonita aos olhos de quem não conhecia sua história. Mas pra mim, ela era um pedaço de tempo que ainda morava ali.

Ganhei aquela xícara de uma amiga antiga. Nós duas costumávamos passar tardes inteiras conversando, rindo e tomando café. Ela dizia que xícaras tinham memória. Que absorviam risadas, segredos e silêncios. Quando me mudei, levei a xícara comigo. Foi o único objeto que empacotei com cuidado demais.

Naquela segunda-feira, no entanto, minhas mãos estavam menos atentas. Ou talvez o destino estivesse mais apressado. A xícara escorregou dos meus dedos e caiu no chão da cozinha. O som foi seco. Um estalo que atravessou o ar como um fim que não pediu permissão. Me abaixei devagar, quase como quem pede desculpas. Estava em pedaços. A rachadura tinha se expandido, feito veias pelo corpo cerâmico. E eu fiquei parado ali, entre cacos e memórias.

“Era só uma xícara”, pensei. Mas não era.

Peguei os pedaços com cuidado. Lavei cada um como se ainda pudessem voltar a ser inteiros. Fiquei olhando pra eles por um tempo. E então lembrei do que minha amiga dizia: que xícaras tinham memória. Talvez por isso a dor de ver aquela se desfazendo fosse tão grande. Porque não era só cerâmica quebrada. Era o fim de um ciclo. Era o passado dizendo que, sim, certas coisas se despedem sem aviso.

Guardei os pedaços numa caixinha. Achei que podia jogar fora depois. Mas os dias passaram e a caixa ficou ali, na prateleira mais alta do armário. Volta e meia eu abria, olhava os cacos e sentia um carinho silencioso. Como se aquele objeto quebrado ainda tivesse algo a dizer.

Teve um dia em que recebi uma visita. Uma amiga nova, dessas que a vida apresenta devagar. Ela viu a caixa aberta e me perguntou sobre os cacos. Contei a história. Falei da xícara, da amiga antiga, dos cafés de fim de tarde, do barulho seco no chão da cozinha.

Ela sorriu com doçura e me disse:

— Você já ouviu falar em kintsugi?

Balancei a cabeça. Não, nunca tinha ouvido falar.

— É uma técnica japonesa. Eles colam cerâmica quebrada com ouro. Porque acreditam que as cicatrizes fazem parte da história. Que o que foi partido pode ser belo de outro jeito.

Fiquei em silêncio. Aquilo me atravessou.

Nos dias seguintes, não consegui parar de pensar nisso. Kintsugi. O nome soava como uma promessa. E eu comecei a olhar para os pedaços da xícara de outro jeito. Com menos tristeza e mais ternura. Um dia, quem sabe, eu tentaria colá-los. Não com ouro, talvez. Mas com tempo, com cola, com cuidado. Com uma nova história.

E foi assim que a xícara quebrada virou lembrança. Uma lembrança que não pesa, mas que me ensina. Sobre perda. Sobre permanência. Sobre tudo o que vale a pena guardar mesmo quando não pode mais ser como antes.

Tem dias em que ainda sinto falta dela. Mas aprendi que a saudade também é uma forma de presença. E que algumas memórias, mesmo em cacos, continuam inteiras dentro da gente.

Hoje, enquanto escrevo esse texto, tomo café numa xícara nova. Não tem rachaduras, nem memórias antigas. Mas tem uma história que começa agora. E talvez isso já seja bonito o suficiente.

Se você tem algo que se quebrou, mas que ainda guarda com carinho, me conta nos comentários. Vou adorar saber quais são as lembranças que você escolheu manter por perto.

Porque, no fim das contas, a vida é isso: um punhado de xícaras, algumas inteiras, outras nem tanto. Mas todas cheias de histórias.

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