Quando a casa não é abrigo

Outro dia, na faculdade, escutei uma conversa que ficou ecoando dentro de mim. Não era comigo, nem era pra mim, mas mesmo assim me atravessou. Era uma menina contando, com a voz mansa e um pouco cansada, sobre sua família. Dizia que em casa era tudo muito difícil, que o pai morava em outra casa, que as brigas eram constantes, e que parecia ser “coisa de linhagem”. Usou essa expressão como quem já desistiu de entender, como quem aceita porque é assim que sempre foi.

Fiquei pensando nessa expressão: “coisa de linhagem”.

Dói imaginar que a dor pode ser passada como se fosse herança. Que certos padrões de violência — mesmo os que não deixam marcas visíveis — se repetem geração após geração, como se fossem parte da mobília da casa.

Não é fácil falar sobre isso. Família, pra muita gente, é um tema delicado. Pra alguns, é sinônimo de afeto, de colo e de pertencimento. Pra outros, é a origem de feridas que ainda não cicatrizaram.

E talvez seja por isso que essa conversa me tocou tanto. Porque nem sempre a casa é um abrigo. Nem sempre o que chamamos de lar é um lugar onde a gente pode descansar o coração.

Mas eu queria dizer uma coisa, com todo o carinho do mundo: você não está sozinho nisso.

Muitas pessoas crescem em ambientes difíceis, confusos, instáveis. Onde a comunicação falha, onde há gritos demais e escuta de menos. Onde o medo anda pelos corredores, onde o silêncio pesa mais do que qualquer palavra. Às vezes, o amor está ali, sim, mas perdido no meio de tantos ruídos e desencontros. Outras vezes, o que está ali é só o eco de uma ausência — emocional, física ou até espiritual.

E quando crescemos em ambientes assim, a gente carrega certas marcas. Marcas que, muitas vezes, demoram pra serem reconhecidas. Porque “foi sempre assim”. Porque “todo mundo passa por isso”. Ou porque aprendemos a não falar, a não sentir, a não reclamar. Mas sentir dor não te faz ingrato. E reconhecer essa dor é um ato de coragem.

Ninguém deveria se acostumar com a agressividade. Ninguém deveria normalizar o desrespeito, a humilhação, o medo.

Eu sei que não é simples quebrar esses ciclos. Às vezes, a gente só percebe que algo está errado quando sai de casa e vê outras formas de afeto, outras formas de se relacionar. Às vezes, a gente percebe aos poucos, quando uma conversa nos pega desprevenidos ou quando sentimos um aperto no peito ao ouvir a história de outra pessoa. É nesse momento que nasce uma faísca: a consciência de que merecemos mais. De que não queremos repetir o que nos feriu.

E olha… só essa consciência já é um passo enorme. Aos poucos, vamos reconstruindo o que aprendemos. Vamos escolhendo novas formas de ser e de estar no mundo. Vamos cuidando das nossas feridas e criando espaços mais seguros — mesmo que pequenos, mesmo que só nossos.

É por isso que eu gosto de pensar que família também pode ser escolha. Às vezes, nossa família de sangue não dá conta. E então encontramos outras pessoas pelo caminho — amigos, professores, vizinhos, terapeutas, colegas de trabalho — que oferecem o que faltava: apoio, acolhimento, compreensão. Essas pessoas não substituem o que nos faltou, mas ajudam a construir algo novo. Algo mais leve. Algo mais verdadeiro.

Se você vive (ou viveu) em um ambiente familiar agressivo, saiba que você não é culpado por isso e que você não precisa continuar esse ciclo. E mais do que tudo: você merece paz.

Às vezes, essa paz começa com um pequeno gesto. Dormir bem em um lugar seguro. Preparar um café e sentir o aroma invadir a casa. Escrever sobre o que está sentindo, mesmo que ninguém vá ler. Conversar com alguém que escute de verdade. Aceitar que doeu, e que ainda dói — mas que é possível se curar.

Cada pequeno gesto é um pedaço de casa sendo reconstruído. Não aquela casa de paredes e telhado, mas a casa que mora dentro da gente. Aquela que é feita de afeto, de cuidado e de escolhas conscientes. Aquela que, um dia, pode acolher outras pessoas também — sem gritos, sem medo.

Não é sobre apagar o passado, nem sobre romantizar o que foi difícil. É sobre dar novos significados, sobre cultivar leveza onde antes havia peso. É sobre não deixar que a dor determine seu futuro. É sobre encontrar, mesmo nos dias difíceis, a coragem de fazer diferente.

E se em algum momento você duvidar, eu repito: você merece uma vida tranquila. Você merece ser tratado com respeito. Você merece uma casa que te abrace, não que te machuque.

Que a gente consiga, aos poucos, transformar as heranças de dor em caminhos de cuidado. E que, mesmo quando a família de origem falhar, possamos criar novas formas de pertencimento. Porque no fundo da alma, o que todo mundo quer é o mesmo: amar e ser amado com gentileza.

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