Outro dia eu sonhei com um barquinho de papel. Sabe aquele tipo de sonho que chega sem pedir licença e, quando você acorda, fica com uma vontade estranha de reviver alguma coisa do passado? Pois é. Quando abri os olhos, a primeira coisa que me veio à cabeça foi a Meli do ensino fundamental — uma garotinha que dobrava qualquer pedacinho de papel que aparecesse na frente. Deixava a mochila cheia de papeizinhos. Era um caos. Um caos dobrado, colorido e, de alguma forma, muito divertido.
Depois desse sonho, me deu uma saudade tão boa de fazer origamis… Era como se cada dobra fosse um lembrete silencioso de uma época em que as preocupações eram poucas e o tempo parecia mais elástico. Então, decidi: vou tentar de novo. Só por diversão.
Peguei uma folha qualquer que estava por aqui — uma folha de caderno mesmo, com anotações de uma ideia de história que nunca terminei — e comecei a dobrar. Fiz o barquinho primeiro, claro. Ele saiu meio torto. Meio troncho. Mas flutuou lindamente na minha imaginação. Depois tentei o aviãozinho. Esse ficou um pouco melhor, e até deu uma planadinha digna pela sala. O gato, que assistia tudo do sofá, não ficou muito impressionado. Mas eu fiquei.
Foi aí que a empolgação bateu de verdade. Se eu consegui um aviãozinho, por que não tentar coisas mais complexas? Eu queria fazer aquele tsuru elegante, cheio de camadas delicadas. Ou talvez um sapinho que pula, lembram? Ou… um dragão chinês! Sim, era isso. Eu vi um vídeo outro dia. Tinha 37 passos. Uma música relaxante ao fundo. A criadora do vídeo sorria o tempo inteiro, como se dobrar aquele dragão fosse a coisa mais natural do mundo. Pensei: se ela consegue, eu consigo também.
(Spoiler: não consegui.)
Na terceira tentativa, o dragão parecia mais um acordeão amassado com antenas. Uma mistura de centopeia com origami pós-apocalíptico. E o pior é que eu ainda estava seguindo o passo a passo direitinho. Pausava o vídeo. Voltava. Dobrava com cuidado. Conferia. Errava. Voltava mais um pouco. Dobrava de novo. E de novo. Em determinado momento, dei risada sozinha. Aquilo ali não era mais sobre dobrar um dragão — era sobre aceitar que algumas coisas ficam melhores na lembrança.
Mas, pra minha surpresa, depois de muito tentar e rir dos meus próprios desastres de papel, eu consegui fazer um tsuru. Um só. Todo tortinho, é verdade. Mas ele tinha uma graça esquisita que me fez sorrir. Dobrado com carinho, cheio de paciência, com algumas falhas no caminho, mas ainda assim… inteiro. Foi quando me dei conta de que era exatamente isso que eu queria resgatar: a sensação de estar inteira em alguma coisa. Mesmo que fosse num pedacinho de papel dobrado.
E depois do tsuru, vieram outros. Um coração. Um cachorrinho. Um peixe. Nenhum ficou perfeito, mas todos ficaram com cara de infância. De tentativa. De descoberta. Teve até um momento em que sentei no chão com as folhas espalhadas em volta, como quando era pequena. O gato de novo não entendeu nada. Mas ficou do meu lado. Como se soubesse que eu estava redescobrindo alguma parte esquecida de mim.
Fazer origamis hoje não é como era antes. Meus dedos parecem mais apressados. O tempo parece mais curto. A autocrítica aparece mais rápido também. Mas existe um silêncio bom em parar tudo por uns minutos e dobrar um papel. É um jeito simples de lembrar que as mãos ainda sabem criar, que o mundo ainda pode se transformar com alguns gestos pequenos. E que não tem problema nenhum em rir do que não deu certo.
Talvez a gente precise mais disso. De dobrar os dias com mais leveza. De transformar folhas em barquinhos que nos levem pra lugares tranquilos. De inventar dragões, mesmo que eles saiam meio esquisitos. Porque, no fim das contas, a graça não tá só no resultado. Tá no caminho. Tá no riso. Tá na tentativa.
Se você aí do outro lado também já fez origamis (ou tentou e desistiu no meio do caminho), conta pra mim. Você lembra qual foi o primeiro que conseguiu fazer? Ou tem algum que sempre quis aprender e nunca conseguiu?
E, se você nunca tentou, fica aqui o convite: pega uma folha de papel qualquer e começa. Faz um coração, um aviãozinho, um passarinho. Faz do seu jeito. Sem pressa. Sem cobranças. Sem regra. Só com vontade de descobrir como é dobrar um pedaço do dia e transformá-lo em algo seu.

O Dia Em Que Eu Saí Para Resolver Uma Coisa… E Voltei Com Cinco
Eu saí de casa com um plano muito claro na cabeça. Muito claro mesmo. Precisava


