Tem fases da vida em que a gente acorda diferente. Mais motivado. Mais esperançoso. E mais iludido também, mas isso a gente só percebe depois. Foi exatamente assim no dia em que eu decidi, do nada, que ia começar uma vida fitness. Saudável. Ativa. Com direito a caminhada, alongamento, garrafinha de água e tudo.
Eu nem sei explicar direito de onde veio essa ideia. Acho que começou quando eu vi um vídeo de uma menina acordando às seis da manhã, correndo no parque, tomando um suco verde e sorrindo como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo. Naquele momento, eu pensei: “Eu também posso ser assim.” Spoiler: não pude. Mas tentei. E isso já merece algum tipo de prêmio.
Naquele dia, eu acordei mais cedo do que o normal. Isso, pra mim, já foi uma vitória histórica. Coloquei uma roupa que eu considerei esportiva, mesmo ela sendo basicamente uma camiseta velha e um tênis que já viveu dias melhores. Preparei uma playlist motivacional, daquelas que prometem transformar qualquer pessoa em protagonista de filme inspirador. Enchi minha garrafinha de água com a seriedade de quem está prestes a participar de uma maratona. Me olhei no espelho e pensei: “É hoje… Hoje começa a era fitness.” Eu estava confiante. Ingênua. Fofa.
Saí de casa cheia de energia. Pelo menos nos primeiros cinco minutos. Caminhei olhando para o céu, respirando fundo, tentando manter uma postura bonita, como se alguém estivesse me filmando para um documentário sobre superação pessoal. Eu andava como se estivesse numa propaganda de vida saudável. Só que, muito rapidamente, meu corpo resolveu me lembrar que eu passo mais tempo sentada escrevendo do que me movimentando. Em menos de dez minutos, eu já estava ofegante. Meu coração parecia ter decidido fazer um show solo dentro do meu peito. E eu comecei a repensar absolutamente todas as minhas escolhas.
Eu tentava fingir que estava tudo bem. Olhava para as pessoas passando por mim, correndo tranquilamente, conversando enquanto se exercitavam, e pensava: “Gente, como vocês conseguem falar e respirar ao mesmo tempo?” Porque eu mal conseguia existir. Cada passo parecia uma pequena conquista. Cada respiração era uma vitória. E eu ainda tentava manter a dignidade. Afinal, a Meli fitness não podia desistir tão cedo, né? Só que meu corpo não estava muito interessado na minha narrativa motivacional.
Em determinado momento, eu parei. Oficialmente, foi para beber água. Na verdade, foi porque eu precisava sentar antes que desmaiasse de leve. Sentei num banco, bebi água como se tivesse atravessado o deserto, e fiquei olhando ao redor, tentando parecer natural. Fingindo que aquilo fazia parte do plano. “Sim, eu sempre paro exatamente aqui. Estratégia.” Enquanto isso, minha mente já estava negociando comigo mesma: “Ok, você tentou. Já tá ótimo. Ninguém mandou você virar atleta.”
Depois de alguns minutos, eu levantei de novo. Porque sou teimosa. E continuei andando. Mais devagar. Muito mais devagar. Num ritmo que poderia ser confundido com um passeio contemplativo. Comecei a reparar nas árvores, nas casas, nos cachorros passeando com seus donos. Transformei minha caminhada em uma espécie de observação da vida. E, curiosamente, isso foi ficando gostoso. Eu já não estava mais tentando ser fitness de Instagram. Eu estava só sendo eu, caminhando do meu jeito, no meu tempo, do jeito que dava.
Em outro dia, resolvi tentar exercícios em casa. Porque, na minha cabeça, seria mais fácil. Bastava abrir um vídeo no YouTube, estender um tapetinho no chão e pronto. Simples. Ingênua novamente. Coloquei o vídeo, a moça super animada começou a falar “vamos lá, pessoal!”, e eu pensei: “Vamos.” Cinco minutos depois, eu já estava tremendo. Dez minutos depois, eu estava questionando minha existência. Quinze minutos depois, eu estava no chão, olhando para o teto, refletindo sobre a vida.
Teve alongamento que virou posição estranha. Teve exercício que eu fiz errado sem saber. Teve pausa que era pra ser de trinta segundos e virou cinco minutos. Teve momento em que eu peguei o celular “só pra trocar a música” e fiquei dez minutos vendo vídeos aleatórios. A vida fitness da Meli não é uma linha reta. É cheia de curvas, pausas, desvios e lanches no meio do caminho.
Mas sabe o que é curioso? Mesmo falhando lindamente, eu comecei a gostar dessas tentativas. Porque, no fundo, não era sobre virar outra pessoa. Não era sobre ter um corpo perfeito, uma rotina impecável ou uma disciplina de atleta. Era sobre me movimentar um pouco. Sobre cuidar de mim. Sobre sair do automático. Sobre provar pra mim mesma que eu posso tentar coisas novas, mesmo sem ser boa nelas.
Aos poucos, percebi que meu conceito de “vida saudável” precisou ser ajustado. Pra mim, ser saudável também é respeitar meus limites. É rir quando algo dá errado. É não me comparar com quem está em outro ritmo. É entender que cada corpo tem seu tempo, sua história, suas fases. Eu não preciso correr uma maratona pra me sentir válida. Às vezes, caminhar por vinte minutos já é um ato de amor comigo mesma.
Hoje, eu continuo tentando. Tem dias que eu me sinto super animada. Tem dias que eu prefiro ficar quietinha lendo ou escrevendo. E tem dias que eu começo um treino e paro na metade. Tudo bem. Eu aprendi que constância não precisa ser perfeição. Pode ser imperfeita, bagunçada, humana. Pode ser do meu jeito.
Talvez eu nunca seja aquela pessoa que acorda às seis da manhã feliz pra correr. Talvez eu nunca ame academia. E talvez eu sempre precise de um empurrãozinho pra me mexer. Mas eu sou alguém que tenta. Que se preocupa consigo mesma. Que quer se sentir bem no próprio corpo e na própria mente. E isso, pra mim, já é muita coisa.
No fim das contas, eu não virei fitness. Mas virei alguém mais gentil comigo mesma. Alguém que entende que cuidar da saúde não é se cobrar o tempo todo. É se acolher. É se respeitar. É se incentivar sem se machucar. É aprender a caminhar — literalmente e metaforicamente — no próprio ritmo.
E se você também está tentando começar algo novo, seja exercício, estudo, rotina ou qualquer mudança, eu queria te dizer uma coisa: não precisa ser perfeito. Não precisa ser bonito. Não precisa ser igual ao dos outros. Precisa ser possível pra você. Precisa caber na sua vida. Precisa fazer sentido no seu coração.
Se for com pausa, vai com pausa. Se for devagar, vai devagar. Se for rindo dos próprios tombos, vai rindo.
Porque, no final, o mais importante não é ser fitness. É ser inteiro 💛✨



