Vi Uma Trend no Instagram e Acabei Voltando Pra Minha Infância

Meli desenhando

Às vezes, eu entro no Instagram sem nenhuma intenção especial. Abro o aplicativo quase no automático, enquanto espero alguma coisa, enquanto descanso a cabeça depois de um dia cheio ou simplesmente quando sinto vontade de me distrair por alguns minutos. Foi exatamente assim naquele dia. Eu não estava procurando respostas, memórias ou emoções. Eu só estava rolando o feed, passando vídeos aleatórios, sem pensar muito. Até que, de repente, um deles me fez parar.

Era uma trend simples. Pessoas mostrando desenhos que fizeram na infância e, logo depois, recriando aqueles mesmos desenhos na fase adulta. Nada muito elaborado. Nada muito produzido. Apenas folhas amareladas, rabiscos tortos, corações fora de forma, casinhas com fumaça saindo da chaminé, sóis sorridentes no canto da folha. E, depois, a versão atual: mais técnica, mais “bonita”, mais correta. Mas, curiosamente, muitas vezes menos leve.

Eu assisti ao primeiro vídeo. Depois ao segundo. Depois ao terceiro. E, quando percebi, já estava completamente envolvida. Não era sobre desenho. Era sobre tempo. Sobre memória. Sobre quem a gente foi. Sobre quem a gente se tornou sem nem perceber.

E, num impulso quase infantil, pensei: “Eu também desenhava. Será que ainda tenho isso guardado?”

Levantei do sofá sem pensar muito. Fui até o quarto, abri a parte mais esquecida do guarda-roupa, aquela onde a gente guarda coisas que não tem coragem de jogar fora. Caixas velhas, pastas, envelopes, cadernos que sobreviveram a mudanças, fases e bagunças. Comecei a mexer sem muita expectativa, como quem procura algo sem saber exatamente o quê.

Até que encontrei.

Um caderno fino, com a capa meio rasgada, meu nome escrito com letra torta e uma flor desenhada ao lado. Reconheci na hora. Era meu. De quando eu era criança. Da época em que eu desenhava sem medo de errar, sem pensar se alguém ia gostar, sem comparar com ninguém.

Sentei no chão mesmo. Abri.

E fui engolida por uma versão minha que eu tinha esquecido.

Ali estavam meus traços inseguros, mas cheios de vontade. Pessoas com braços desproporcionais. Casas enormes. Árvores gigantes. Corações espalhados pelas páginas. Frases escritas errado. Cores escolhidas sem critério. Céus verdes. Sol roxo. Mar rosa.

Nada fazia sentido. E, ao mesmo tempo, tudo fazia.

Eu desenhava o que sentia, não o que fazia sentido.

Desenhava quando estava feliz. Quando estava triste. Quando brigava com alguém. Quando sentia saudade. Quando estava entediada. O papel era meu refúgio silencioso. Meu lugar seguro.

E eu tinha esquecido disso.

Naquele momento, senti uma mistura estranha de alegria e saudade. Alegria por reencontrar aquela menina tão viva dentro de mim. Saudade por perceber o quanto eu me distanciei dela ao longo do tempo.

Quando foi que eu parei de desenhar por prazer?

Bem, eu não soube responder. Só fiquei ali, passando as páginas devagar, como quem revisita um álbum de fotos.

Decidi participar da trend.

Peguei um dos desenhos: uma menina sentada embaixo de uma árvore, segurando um coração. Simples. Ingênuo. Meio torto. Perfeito do jeito dele.

Separei uma folha. Peguei meus materiais. Respirei fundo. E comecei.

No começo, foi estranho. Minha mão estava mais dura. Mais controlada. Eu queria fazer “certo”. Queria que ficasse bonito. Queria que ficasse digno de ser postado. Queria que fosse perfeito.

Até perceber que isso não combinava com a proposta. Aquela criança não queria perfeição. Ela queria expressão.

Então, eu soltei. Deixei o traço sair. Deixei a emoção guiar. Deixei o desenho acontecer.

E, pela primeira vez em muito tempo, me senti livre criando.

Quando terminei, coloquei os dois lado a lado.

O antigo e o atual.

E fiquei olhando.

O desenho novo estava mais “bonito”. Mais proporcional. Mais técnico. Mas o antigo tinha algo que eu ainda estava tentando reaprender: coragem.

Coragem de ser imperfeita. Coragem de errar, de sentir e de tentar sem garantia nenhuma.

Aquela criança não tinha medo do julgamento. Ela só queria existir.

Enfim, postei nos Stories… Com um texto simples, sem grandes explicações e nem filtros.

E aí fui dormir.

No dia seguinte, acordei com mensagens. Comentários. Pessoas contando suas próprias histórias. Falando dos desenhos que perderam. Dos sonhos que deixaram pra depois. Das versões de si mesmas que ficaram pelo caminho.

Percebi, então, que aquele vídeo não era só sobre mim. Era sobre todos nós.

A gente cresce acreditando que amadurecer é deixar certas coisas pra trás. Brincar menos. Sonhar menos. Criar menos. Sentir menos. Arriscar menos.

Como se sensibilidade fosse fraqueza, como se emoção fosse problema e como se imaginação fosse infantil demais.

E não é. É força. É humanidade. É o que nos mantém vivos por dentro.

Desde aquele dia, eu voltei a desenhar mais. Sem meta. Sem obrigação. Sem expectativa. Só por amor.

Às vezes fica feio. Às vezes fica bonito. Às vezes fica estranho. Mas sempre fica verdadeiro.

E isso é suficiente.

Talvez você esteja lendo isso agora e pensando em algo que você fazia quando era criança. Algo que amava. Algo que te fazia esquecer do mundo. Algo que te fazia sorrir sem motivo.

Talvez esteja na hora de reencontrar isso. Nem que seja por cinco minutos. Nem que seja só pra lembrar.

💛 Se esse texto tocou você de alguma forma, me conta nos comentários.

O que você amava fazer na infância e acabou deixando pra trás?

Quem sabe a gente não se ajuda a resgatar essas versões esquecidas da gente mesma.

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