O mundo (quase) invisível das pequenas coisas

Era um dia qualquer. Não era um dia especial, nem um dia comum, mas uma daquelas manhãs que a gente quase não percebe, de tão rotineiras que se tornam. O céu estava meio nublado, o que deixava a luz suave e tranquila, e o som da cidade ao fundo seguia no seu ritmo usual — pessoas indo para o trabalho, carros passando, o tilintar de xícaras num café qualquer, o latido distante de um cachorro.

Eu voltava pra casa depois de uma manhã de trabalho. Peguei o ônibus como sempre, e ele estava mais vazio do que o habitual. Uma surpresa boa. Sentei sozinha, encostei a cabeça na janela e deixei o mundo correr lá fora. Gosto desses momentos em que o silêncio chega de leve, sem fazer alarde. Momentos em que a gente, por um instante, não precisa responder ninguém, nem tomar decisões. Só… estar.

A viagem seguiu tranquila, sem sobressaltos. Até que, ao passar por uma praça que eu sempre via com pressa, uma imagem me chamou a atenção. Uma árvore antiga, de tronco grosso, se destacava entre o verde. Era uma árvore que eu já tinha visto mil vezes antes — mas naquele dia, ela parecia outra. Ao pé dela, uma menininha com um vestido amarelo-claro estava ajoelhada, com o rosto bem próximo ao chão. Ela observava, encantada, uma formiga carregando uma folha muito maior que o próprio corpo.

Não havia mais ninguém com ela. Nem celular, nem brinquedo. Só ela, a formiga, e um mundo inteiro que parecia caber naquele pequeno espaço entre as raízes da árvore. O jeito como ela se concentrava, o corpo imóvel e os olhos atentos, me fez parar. A cena durou segundos, mas me atravessou.

Aquela menina estava realmente presente. Sem pressa, sem distrações. Como se o tempo tivesse desacelerado só pra ela.

E eu me peguei pensando: quando foi a última vez que eu olhei pra algo assim com tanto encantamento?

Quantas vezes a gente deixa momentos como esse passarem despercebidos? A gente corre tanto — pra dar conta, pra resolver, pra ser produtivo — que, às vezes, esquece de prestar atenção na beleza que está bem diante dos nossos olhos. Não precisa ser grandioso. Pode ser um detalhe. Um raio de sol atravessando a cortina. Um café quente depois de um dia difícil. Um abraço silencioso que diz tudo sem dizer nada.

Às vezes, é só uma criança ajoelhada diante de uma formiga.

Naquele instante, senti como se a vida tivesse me dado um lembrete gentil. Algo como: “Ei, olha em volta. Ainda tem beleza por aqui.” E isso ficou comigo o resto do dia.

No fundo, acho que todo mundo carrega essa saudade de algo simples. De quando tudo era novidade. De quando a gente não precisava entender tudo — bastava sentir.

E talvez, no meio do cansaço dos dias corridos, no meio das tarefas que nunca acabam, o que a gente mais precise seja disso: de reaprender a ver o mundo com olhos de começo. Olhos que ainda se espantam. Olhos que encontram poesia onde quase ninguém mais olha.

A gente costuma achar que são os grandes acontecimentos que moldam a vida. As festas, os anúncios, as conquistas. Mas eu começo a acreditar que, mais do que isso, são as pequenas coisas — as quase invisíveis — que preenchem o nosso cotidiano com sentido. Um sorriso no elevador. Um bilhete esquecido no bolso. A lembrança de um cheiro antigo.

Se você parar pra pensar, talvez os momentos mais marcantes da sua vida tenham começado assim: com algo pequeno, quase insignificante, mas que foi crescendo dentro de você com o tempo.

E se for esse o segredo? E se o verdadeiro encantamento da vida estiver nas coisas que não aparecem nas redes sociais, nem viram notícia, nem ganham aplauso?

Talvez o que nos sustenta, no fundo, sejam os detalhes. Os gestos pequenos. Os silêncios compartilhados.

Escrevendo isso agora, percebo quantas vezes já me senti desconectada de mim mesma por estar sempre tentando alcançar algo lá na frente. Como se a vida estivesse sempre num lugar onde eu ainda não cheguei. Mas, naquele dia, naquela manhã cinzenta e sem pressa, tudo o que eu precisava estava ali: num ônibus quase vazio, numa praça qualquer, numa árvore que sempre esteve no mesmo lugar… e numa garotinha que sabia exatamente como estar presente.

E que sorte a minha ter notado.


E você? Quais são as pequenas coisas que têm passado despercebidas na sua vida? Que momentos do seu dia poderiam ser mais bonitos se você os olhasse com mais atenção? Às vezes, basta um olhar mais demorado, um silêncio sem culpa, uma pausa pra respirar fundo.

Talvez você descubra que o mundo ao seu redor está cheio de pequenos milagres, esperando para serem notados.

E quando isso acontecer, me conta.

Porque eu acho que é assim que a gente começa a se sentir menos sozinha(o): compartilhando as belezas quase invisíveis que tornam nossos dias um pouco mais vivos.

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