Como escrever um livro mudou a minha vida

No começo, era só um rascunho meio solto. Algumas cenas imaginadas no meio da noite, palavras escritas no bloco de notas do celular, diálogos que eu inventava na cabeça enquanto lavava a louça. Nada muito certo. Nada muito pronto. Só uma vontade quieta de colocar algo pra fora.

Aos poucos, aqueles dois personagens — tão diferentes, tão humanos, tão cheios de dúvidas e vontades — começaram a ganhar vida. E, sem perceber, a história deles foi me puxando junto. Eles foram se tornando mais do que personagens. Foram se tornando espelhos.

O que eu não sabia, naquela época, era o quanto essa escrita também iria me transformar.

Escrever esse livro não foi só sobre contar uma história. Foi sobre me escutar de um jeito novo. Revisitar partes da minha adolescência que eu achava que já estavam resolvidas. Encarar silêncios antigos com mais coragem. Descobrir que o tempo nem sempre cura tudo, mas pode ensinar outras formas de olhar — com mais gentileza, mais paciência.

Teve dia em que eu escrevia sorrindo. Teve dia em que eu chorava no meio de uma cena e fechava o notebook sem terminar o parágrafo. Teve noite em que eu relia trechos e me perguntava: “Como foi que eu guardei isso aqui por tanto tempo?”. Teve também aquele tipo de página que parece te libertar de algo. Como se, finalmente, alguma parte sua tivesse sido ouvida.

A escrita me fez companhia nos silêncios que ninguém mais escutava.

Me ajudou a reorganizar memórias, a acolher sentimentos, a entender melhor quem eu fui e quem estou me tornando. Foi como acender uma luz num cômodo que eu nem lembrava mais de visitar. E, ao iluminar esse lugar, encontrei versões antigas de mim — assustadas, sonhadoras, perdidas, mas também cheias de vontade de seguir em frente.

Um livro como um abraço

Esse primeiro livro, pra mim, é isso: um abraço no que já fui e um aceno para o que ainda serei.

Carlos e Bárbara, os protagonistas, nasceram de sentimentos que não cabiam mais só dentro de mim. Aos poucos, foram dizendo coisas que eu mesma precisava ouvir. Cada um deles carrega partes minhas — às vezes uma lembrança disfarçada, às vezes uma pergunta que ainda não sei responder.

Eles são muito diferentes entre si, mas é justamente nas diferenças que encontrei ecos do que sou.

Carlos, com sua introspecção, seu jeito silencioso de observar o mundo. A maneira como ele guarda as coisas pra si, como se estivesse sempre procurando um lugar seguro dentro de si mesmo. E Bárbara, com sua coragem meio bagunçada, tentando entender os próprios sentimentos enquanto carrega o peso de tantas expectativas. Ela sente demais. E sente fundo.

Escrevendo sobre os dois, fui me dando a chance de me reencontrar.

Percebi que, mesmo quando escrevemos sobre personagens distantes da nossa realidade, algo da gente sempre escapa por entre as linhas. É como se escrever fosse, na verdade, escutar uma versão de si que estava esperando há tempos para ser notada.

O medo de começar

Durante muito tempo, eu tive vergonha de dizer que estava escrevendo um livro. Duvidei de mim. Achei que ninguém se interessaria. Que talvez eu estivesse só me iludindo. Teve até um momento em que pensei em apagar tudo — como se assim fosse mais fácil fingir que nunca tentei.

Mas a verdade é que a história já existia dentro de mim. E uma vez que ela começa a nascer, não tem como desnascer.

A gente pode até tentar fingir que não tá ouvindo, mas ela insiste. Vai voltando aos poucos, nas ideias que surgem na fila do supermercado, nas frases que aparecem antes de dormir, nos sentimentos que a gente só consegue organizar escrevendo.

Hoje eu entendo que escrever não é sobre ter certeza. É sobre ter coragem.

Coragem de tentar, de errar, de recomeçar. De colocar no papel o que a gente mal sabe nomear. De transformar um monte de sensação bagunçada em algo que, talvez, outra pessoa também possa sentir. Porque é isso que a escrita faz: aproxima, acolhe e conecta.

Não é só ficção

Essa história nunca foi só ficção. Ela virou uma conversa íntima entre partes minhas que estavam esperando para ser escutadas. E agora que esse livro existe, sinto que essas vozes foram, finalmente, acolhidas.

É por isso que escrever mudou a minha vida.

Mudou o jeito como eu me escuto. Mudou minha relação com o tempo, com as memórias, com o passado e com os outros. Me deu um novo olhar sobre a dor e sobre o afeto. E, principalmente, me lembrou de algo que eu tinha esquecido: todo mundo tem dentro de si uma história que merece ser contada.

Mesmo que ninguém leia. Mesmo que não esteja “pronta”. Mesmo que só exista no bloco de notas do celular.

E se for com você?

Se você tá lendo esse texto e sente que também tem uma história que pulsa aí dentro — mesmo que ainda não saiba como começar — eu só queria te dizer: começa do seu jeito. Sem pressa. Sem cobrança. Às vezes, tudo começa com uma frase sincera escrita num papel qualquer. Às vezes, é só uma cena que insiste em voltar à mente. Pode parecer pouco… mas não é.

Escrever pode ser um jeito de cuidar de si. De se escutar melhor. De dar voz a sentimentos que estavam calados.

E olha, mesmo se você não quiser publicar, mesmo se for só pra você: já vale. Já transforma.


E você, tem uma história aí dentro?

Me conta nos comentários: você também escreve? Já tentou? Já sentiu essa vontade de transformar sentimentos em palavras? Vou amar saber como a escrita aparece (ou já apareceu) na sua vida.

Se quiser, conta também o que achou do post 💌

Esse espaço é nosso — feito de trocas, de escutas e de páginas que se preenchem aos poucos.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Veja Também:

    0
    Seu Carrinho
    Seu carrinho está vazioVoltar à Loja