A maioria das histórias não escancara suas dores. Elas apenas sussurram. Cutucam e desmontam a gente em silêncio.
A Filha Perdida, da Elena Ferrante, foi assim pra mim. Um incômodo lento, íntimo, que ficou ecoando muito depois da última página.
E não foi exatamente pela trama. Foi pelo que ela escava.
Leda é uma personagem difícil de amar — e talvez por isso mesmo que me pareceu tão real. Uma mulher que já foi mãe jovem, que fez escolhas que não se orgulha, que carrega culpa, liberdade e solidão no mesmo corpo. Ela está de férias sozinha na praia, mas não há paz ali. Só camadas e mais camadas de lembranças que vão voltando sem pedir licença.
O livro não dá respostas. Ele lança perguntas desconfortáveis, que a gente prefere não fazer: E se a maternidade não for suficiente? E se a vontade de ser livre for mais forte do que o instinto de cuidar? E se o que chamam de abandono for, na verdade, um grito de socorro nunca escutado?
A escrita da Elena é afiada. Quase seca. Não tem floreio, não tem alívio. Mas tem verdade — uma verdade áspera, humana, que me obrigou a olhar pra dentro. Porque, no fundo, quem nunca teve vontade de sumir um pouco da própria vida? Nem que fosse só por uns dias. Às vezes, o cansaço emocional não se traduz em palavras, mas em silêncios carregados. E Ferrante escreve esses silêncios com uma precisão assustadora.
O que mais me marcou foram os momentos em que Leda se depara com outras mulheres — mães, filhas, esposas — e se vê nelas. Ou tenta fugir delas. É como se todo mundo fosse um espelho que ela evita, mas no qual acaba tropeçando. E aí a gente entende: o passado não vai embora só porque a gente finge que ele não existe.
Tem uma cena específica que me deixou sem ar. Ela pega uma boneca — da filha de outra mulher — e esconde. E ninguém entende por quê. Nem ela. Mas tem algo ali de simbolismo, de trauma, de desejo de voltar a um tempo em que ela mesma foi filha, antes de ser tudo o que esperavam dela. A boneca vira símbolo do que foi tirado, do que ela tentou recuperar, do que nunca soube cuidar. É como se, por um instante, ela pudesse controlar alguma coisa. Segurar algo que representasse o afeto perdido — o seu e o dos outros.
Depois que terminei o livro, fiquei dias pensando na quantidade de mulheres que vivem esse conflito em silêncio. Que amam os filhos, mas também se sentem esmagadas por eles. Que carregam culpa por sentimentos que nunca tiveram coragem de dizer em voz alta. Que foram ensinadas a cuidar, mas nunca foram cuidadas.
A maternidade, ali, não é idealizada. É atravessada de ambivalências. De amor e exaustão, de desejo e ressentimento, de entrega e fuga. Ferrante não escreve para confortar — ela escreve para abrir feridas que a gente achava que já tinha cicatrizado.
A Leda não é heroína. Nem vilã. É só humana. E acho que é justamente por isso que esse livro me atravessou tanto: porque me fez perceber que a liberdade, às vezes, vem junto com o peso de não ser compreendida. E que existem dores que não desaparecem — elas só aprendem a se esconder em lugares mais fundos.
Tem algo de cru nessa escrita que me encanta. Ferrante não tenta suavizar o que é difícil. Ela escancara. E, ao fazer isso, dá permissão para que outras mulheres — e outras pessoas — reconheçam sentimentos que foram enterrados. Não pra justificar, mas pra permitir que existam.
E isso, pra mim, é uma forma de cuidado.
A leitura me lembrou que a literatura pode ser faca, mas também pode ser espelho. E, às vezes, a gente precisa dos dois.
Enquanto lia, pensei muito em como a gente carrega personagens dentro da gente. Leda foi um deles. E, por mais que eu tenha discordado de várias das atitudes dela, me senti atravessada pelo que ela representa. Talvez porque, no fundo, ela seja uma versão extrema de uma inquietação que habita muitas pessoas: e se o que esperam de mim não cabe no que eu sou?
Essa é uma das perguntas mais difíceis de encarar. E A Filha Perdida tem coragem de fazê-la sem rodeios.
Talvez você conheça alguém que também precise dessa leitura. Alguém que esteja tentando se entender. Alguém que, como a Leda, carrega sentimentos difíceis de nomear.
Se esse livro mexeu com você, quem sabe ele não possa ser um presente especial pra outra pessoa também?
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