Elas estavam paradas no ponto de ônibus, lado a lado, como quem já compartilha silêncios há muitos anos. A tarde era fria, dessas que deixam o céu pálido e o vento inquieto, querendo encontrar alguma fresta para se enroscar. A senhora, de cabelos já bem brancos, usava um casaco grosso de lã bege — o tipo que parece ter sido feito para durar. A filha, com os ombros levemente curvados, mantinha as mãos fora dos bolsos, como se algo dentro dela dissesse que ainda haveria algo a segurar.
O ônibus estava atrasado. Ao redor, um vai e vem apressado de pessoas que pareciam estar sempre indo para algum lugar mais importante. As duas, no entanto, permaneciam ali, como um intervalo na pressa do mundo.
Foi então que veio o vento. Não era um vento forte, mas o suficiente para virar a gola do casaco da senhora, expondo seu pescoço magro ao frio cortante da tarde. Ela nem percebeu. Ficou ali, olhando o asfalto, como se esperasse mais do que um ônibus.
A filha, ao lado, notou na mesma hora. Sem dizer nada, se virou levemente e, com movimentos suaves, ajeitou a gola da mãe de volta ao lugar. Seus dedos demoraram mais do que o necessário. Era como se estivessem reconhecendo o tecido — ou talvez reconhecendo o gesto. Alisou a lã com a palma da mão, duas vezes, até que tudo estivesse no lugar.
A senhora não reagiu com surpresa. Apenas sorriu com os olhos. Um sorriso quieto, pequeno, como quem diz “eu sei que você cuida de mim”. E a filha retribuiu com aquele tipo de olhar que só quem já foi cuidado demais entende como é bom poder retribuir — mesmo que seja só com as pontas dos dedos.
Ficaram assim por mais um tempo, imóveis no frio suave da cidade, como se aquela pequena ação tivesse aquecido mais do que o próprio casaco.
E então a filha enfiou a mão na bolsa e puxou uma embalagem amassada de pastilha de hortelã. Ofereceu uma para a mãe. E antes de devolver a embalagem, olhou por um segundo a parte de dentro da tampa, onde ainda havia um rabisco antigo — uma flor torta feita com caneta vermelha.
Era de quando ela era criança. Tinha mania de desenhar em tudo: guardanapos, cantos de folha, etiquetas de remédio. E a mãe guardava. Às vezes, escrevia a data e colocava o papel numa caixa. Às vezes, colava na porta da geladeira. Outras vezes, como naquele dia, dobrava e deixava dentro de algo simples — uma tampa de pastilha — que voltava a aparecer anos depois, do nada.
A filha olhou aquele desenho rápido e sentiu o coração apertar de um jeito doce. Aquilo era uma lembrança, claro. Mas era mais do que isso. Era uma lembrança do cuidado da mãe por ela. Do olhar atento que prestava atenção até no que não fazia sentido algum, como uma flor com pétalas de números.
A filha guardou a tampa de volta na bolsa e olhou de novo para a senhora ao seu lado, agora distraída observando um cachorro passar. E então pensou: o amor não desaparece. Ele só muda de lugar.
De um prato de comida na infância a uma gola de casaco no fim da tarde.
De um colo quente a uma mão que oferece uma pastilha com uma flor rabiscada por dentro.
O ônibus chegou. Subiram devagar, a filha sempre um passo atrás, prestando atenção nos degraus e nas mãos da mãe segurando a bolsa.
A tarde continuou fria. Mas dentro da filha, algo havia se aquecido. Não pelo vento, não pela espera — mas por esse tipo de memória que não é feita de palavras, nem de fotos. Só de gestos pequenos. Só de presença.



