Outro dia, me fizeram uma pergunta que ficou na minha cabeça por um bom tempo. Ela ficou ali, quietinha, me observando enquanto eu fazia outras coisas do dia a dia e, de um jeito muito carinhoso, ficou me cutucando com uma curiosidade sincera: “Será que um dia você vai escrever uma história que não tenha o Carlos e nem a Bárbara?”
É engraçado, né? Eu mesma já me fiz essa pergunta algumas vezes. Porque, veja bem, eu fiquei tão próxima desses dois personagens que às vezes parece que eles existem mesmo. Foram tantas cenas que escrevi com o coração aberto, tantos diálogos que eu ouvia com nitidez dentro de mim, tantas sensações vividas junto com eles… Que pensar em escrever outra história, com outras pessoas, é quase como mudar de casa depois de muitos anos morando no mesmo lugar.
Carlos e Bárbara nasceram quase sem querer, mas foram ficando, ficando, e no fim, tomaram conta de um pedaço imenso do meu coração. Eles carregam comigo tantas coisas que eu mesma vivi, tantas dúvidas que já me atravessaram, tantas palavras que eu gostaria de ter ouvido (ou dito) na adolescência… E acho que é por isso que eu sempre volto pra eles. É como visitar velhos amigos que te acolhem do jeitinho que você é.
Mas… e se eu dissesse que sim, que talvez um dia eu escreva uma nova história? Uma história que comece do zero, com outros nomes, outras paisagens, outras vozes?
Essa possibilidade me anima e me assusta na mesma medida. Anima porque, como escritora, há um universo inteiro dentro de mim querendo ser descoberto. Tem personagens que às vezes sussurram de longe, cenas que aparecem como flashes durante uma caminhada, ideias que me visitam no banho e depois somem rindo como quem diz “você não anotou!”. E também assusta porque começar algo novo também significa se despedir, ao menos por um tempo, do que já é conhecido. Do ritmo das frases que o Carlos diria e do olhar da Bárbara sobre o mundo.
Escrever uma nova história exige escuta. É preciso ouvir com muita delicadeza os novos personagens chegando. Saber o que eles têm a dizer. E confiar que, mesmo que seja diferente, também pode ser bonito.
É curioso como, às vezes, as pessoas me dizem que sentem saudade do Carlos e da Bárbara — e isso me emociona tanto. Mas o que talvez nem todos saibam é que eu também sinto saudade deles. Mesmo que estejam ali nos livros, é como se houvesse uma vida paralela acontecendo, e eu só acompanho alguns trechos. Quando escrevo, eu os reencontro. E quando termino de escrever, fico ali, sentada na beiradinha da história, sentindo aquela pontinha de saudade boa.
Mas sim, respondendo à pergunta com mais clareza: um dia, eu quero muito escrever outras histórias. Com outros personagens, outros mundos e outras camadas de silêncio e luz. Quero explorar outros temas, talvez outros gêneros, e ver o que mais posso descobrir sobre mim e sobre as pessoas ao meu redor por meio das palavras.
Às vezes, imagino um livro com uma menina que se apaixona por palavras e cria um clube de cartas secretas. Ou um menino que constrói miniaturas de cidades para lidar com a solidão. Às vezes, penso numa história que aconteça em uma única tarde. Ou em um livro que se passe em uma livraria antiga, onde cada livro leva a um universo diferente. Não sei ainda qual dessas ideias vai ganhar vida. Mas eu sei que, quando chegar a hora, ela vai me chamar. Vai pedir pra ser escrita. Vai fazer com que eu queira sentar e ouvir, como quem recebe uma visita inesperada — e muito bem-vinda.
Escrever é um ato de carinho. É como acender uma luzinha num canto escuro e esperar que alguém a veja. E mesmo que Carlos e Bárbara tenham sido as minhas primeiras luzes, eu acredito que ainda há muitas outras esperando para serem acesas.
Se você, que está lendo esse post, também sente saudade deles, eu te entendo.
Mas quero te convidar a ficar por perto, mesmo quando os personagens mudarem.
Porque, no fundo, mesmo quando os nomes são diferentes, as emoções continuam parecidas.
A dor da despedida. A beleza dos encontros. A confusão dos sentimentos. A coragem de continuar. Essas coisas atravessam todas as histórias — e nos atravessam também.
Talvez eu ainda escreva mais sobre Carlos e Bárbara. Vai saber. Às vezes, eles me surpreendem. Me aparecem numa ideia de capítulo novo, num pedaço de diálogo esquecido, num flash do futuro… E aí eu volto, feliz da vida, pra contar mais um pouquinho sobre eles.
Mas também deixo a porta aberta para outras vozes, outras histórias e outros começos.
E quando esse dia chegar, espero que você esteja comigo, como esteve até agora.
Obrigada por caminhar ao meu lado nesses livros que nasceram do meu coração. E obrigada, também, por me dar a coragem de imaginar o que vem depois.
Com carinho,
Meli 💙



