E se Carlos e Bárbara tivessem se conhecido quando eram crianças?

Às vezes eu gosto de imaginar caminhos alternativos. Não porque os personagens precisem de finais diferentes, nem porque a história precise de reparos. Mas porque existe algo de bonito em brincar com o “e se?”. Uma possibilidade inventada, uma memória que nunca existiu — e que mesmo assim parece real.

Hoje eu tive uma ideia diferente que me deixou bem animada:

E se Carlos e Bárbara tivessem se conhecido quando eram crianças?

Antes das crises da adolescência. Antes das mensagens deixadas no vácuo, dos silêncios mal interpretados, dos desencontros… E se, em vez de se encontrarem no ensino médio, eles tivessem se cruzado quando ainda eram crianças?

Quando tinham sete ou oito anos. Naquela fase em que os olhos ainda são grandes diante do mundo, e as palavras nem sempre dão conta do que se sente. O que será que teria acontecido?

Não sei explicar por quê, mas adoro essa ideia. Talvez porque, mesmo em outra época, mesmo pequenos, talvez algo neles já se reconhecesse. Ou talvez porque a conexão que existe entre os dois não dependa da idade ou porque certos encontros não precisam de tempo certo. Eles só… acontecem.

Hoje eu quero contar uma pequena cena deles da época em que ainda eram pequenos.


Era uma tarde qualquer, Carlos não estava animado. Era uma festinha de criança num salão alugado, daquelas com balões coloridos, mesinhas com toalha de papel, suco servido em copo de plástico e música animada demais para os ouvidos dele.

Tinha ido porque a mãe insistiu. Um colega da escola fazia aniversário e tinha convidado a turma toda. Ele nem era tão próximo assim do aniversariante. Mas foi. Ficou ali, meio encostado na parede, observando.

Pegou um pedaço de papel e um lápis de cor que encontrou numa caixa esquecida perto da mesa do bolo. Sentou num canto e começou a desenhar. Um boneco meio torto, com olhos grandes e uma árvore ao fundo. Não sabia por que desenhou aquilo. Só foi. Às vezes, desenhar era como fugir sem sair do lugar.

Bárbara chegou um pouco depois. Ela usava um vestido azul-claro e uma presilha com flor no cabelo. Cumprimentou o aniversariante, comeu um brigadeiro e logo percebeu que não queria pular no pula-pula e nem correr com as outras crianças. Procurou um canto mais calmo — e foi aí que viu ele.

Sentado, desenhando, como se nem estivesse ali de verdade. Ela parou perto, sem dizer nada por alguns segundos. Depois se abaixou.

— Oi.

Carlos levantou os olhos. Assentiu, mas não respondeu.

— Você tá desenhando?

Ele hesitou, mas virou o papel devagar.

— Ainda tô começando. É uma árvore.

Ela se abaixou para ver melhor.

— Parece mesmo. E esse risco aqui, são as folhas?

Carlos assentiu.

— Legal — ela sorriu.

Carlos não soube o que dizer. Mas pela primeira vez, naquela festa barulhenta, não se sentiu fora do lugar.

Bárbara se sentou ao lado dele, sem pressa. Perto, mas sem invadir.

— Posso desenhar com você?

— Pode — ele respondeu, quase sem pensar.

Ela sentou ao lado, deixando espaço entre os dois, mas perto o suficiente para verem o que o outro fazia. Pegou um lápis de cor vermelho da caixinha que alguém tinha esquecido por ali.

— Eu gosto de desenhar casas. Mas as minhas casas sempre têm janelas grandes. Tipo janelas que cabem gente passando por elas.

Carlos riu.

— Isso parece meio perigoso.

— É. Mas também parece divertido.

Ficaram em silêncio por alguns minutos. Ela desenhava uma casa com janelas enormes. Ele, agora, tentava desenhar um gato.

— Qual o seu nome? — ela perguntou, enquanto coloria o telhado.

— Carlos. E o seu?

— Bárbara. Mas todo mundo me chama de Babi.

Ele repetiu em voz baixa:

— Babi? Que legal.

O som do nome dela ficou na cabeça dele por alguns segundos, como uma palavra que ainda não tinha significado, mas que dava vontade de repetir. Babi.

— Você mora por aqui? — ela perguntou.

— Uhum. E você?

— Me mudei faz pouco tempo. Ainda não conheço ninguém direito.

Carlos olhou pra ela.

— Eu também não conheço muita gente. Mesmo morando aqui faz tempo.

Ela deu um sorrisinho triste.

— Às vezes parece que a gente tá em outro planeta, né?

Ele assentiu.

— Parece mesmo.

O som do “parabéns pra você” ecoou do outro lado do salão. Uma onda de crianças correu para a mesa do bolo. Mas Carlos e Bárbara continuaram sentados no chão, terminando os desenhos.

Ficaram ali mais um tempo. Quando chamaram para o bolo, foram juntos, ainda com os desenhos nas mãos. Na hora de ir embora, ele guardou a folha com a casa de janelas grandes no bolso da mochila. Não quis dizer por quê. Só guardou.

E, por algum motivo, aquela tarde ficou com ele. Mesmo anos depois, mesmo sem lembrar o nome dela.


O Que Esse “E Se?” Me Diz Sobre Eles

Essa cena nunca aconteceu nos livros. Mas poderia.

Escrevê-la me fez perceber que existe algo muito forte no modo como Carlos e Bárbara se conectam. É silencioso, quase invisível. Mas está lá. Mesmo quando ainda não sabem direito quem são. Mesmo quando o mundo em volta parece alto demais.

Eles carregam esse tipo de afeto que nasce sem alarde. Que não precisa de palavras grandes nem de promessas feitas olhando nos olhos. É aquele tipo de cuidado que começa com um “você quer sentar aqui comigo?” ou “pode desenhar também”. E isso, pra mim, já é tudo.

Quando penso neles assim, crianças, percebo que a essência de cada um já estava ali. Carlos, mais quieto, observador, tentando transformar o que sente em imagens no papel. Bárbara, atenta, curiosa, chegando de mansinho, mas com vontade de entender o outro sem pressa. Eles ainda não sabiam que a vida um dia ia colocar os dois diante de grandes distâncias, despedidas e reencontros. Mas talvez, naquele pequeno encontro imaginado, já existisse uma pista de que algo entre eles seria sempre importante.

Acho que é por isso que essa cena me emociona.

Porque, mesmo que nunca tenha acontecido, ela revela algo verdadeiro. Nos mostra como a conexão entre duas pessoas pode existir em qualquer fase da vida — e como os gestos mais simples são, muitas vezes, os mais duradouros.

E talvez seja isso que eu mais ame em escrever histórias: a chance de brincar com o tempo, de voltar no passado que nunca foi, de criar lembranças que, de alguma forma, ainda assim tocam a gente.

E você? Já pensou em como teria sido encontrar alguém especial em outro tempo da sua vida?

Quem sabe, num universo paralelo, Carlos e Bárbara se conheceram ali mesmo — sentados no chão de um salão barulhento, desenhando árvores e janelas grandes, e descobrindo, sem saber, que havia algo especial naquele silêncio compartilhado.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Veja Também:

    0
    Seu Carrinho
    Seu carrinho está vazioVoltar à Loja