Hoje eu queria falar sobre um momento absolutamente banal: uma passada despretensiosa pela livraria do shopping.
Sabe quando você só quer olhar as capas, sentir o cheirinho de livro novo e fingir que tem tempo pra começar uma nova leitura? Era isso. Eu estava ali, vagando pelos corredores, sem nenhuma intenção específica, só deixando os olhos passearem pelas lombadas e pelas promessas silenciosas de cada título. Gosto da calma disfarçada das livrarias — aquele silêncio cheio de vozes esperando para serem ouvidas.
Foi quando dei de cara com uma pilha bem organizada logo na entrada: livros de colorir para adultos.
Sim, eram livros de colorir para adultos!
O título era algo como Cozy Friends. Na capa, dois porquinhos sorrindo debaixo de um cobertor. Aquarelados. Com bochechas rosadas. Um cogumelo simpático no canto. E uma xícara de chá fumegante flutuando num balão. Sério. Um balão. O tipo de imagem que minha versão de oito anos teria enquadrado e colocado na parede. Mas ali estava ele, posicionado estrategicamente para quem paga boleto, responde e-mail e vive dizendo que “tá corrido”.
Olhei de novo pra faixa dourada no topo: “Livro para adultos.”
E eu ri. Sozinha.
É irônico, né? A gente cresce e de repente precisa que nos autorizem a brincar. Que rotulem o lúdico como terapêutico pra que pareça válido. A moda dos livros de colorir para adultos não é nova, eu sei. Mas tem algo quase comovente nessa tentativa coletiva de resgatar, sem culpa, aquilo que um dia nos fez tão bem: pintar, desenhar, misturar cores sem um objetivo final.
Enquanto olhava aquela capa, me peguei lembrando de um estojo de lápis de cor que eu tive. Ele tinha duas camadas e também vinha com um apontador. Eu achava aquilo o auge da sofisticação. Passava tardes desenhando casinhas tortas, arco-íris repetidos e estrelas de cinco pontas que nunca saíam do mesmo tamanho. Não era sobre técnica. Era sobre liberdade. Era sobre o tempo não importando tanto.
Hoje, a gente parece precisar de motivo pra tudo. Se não for útil, se não render, se não trouxer resultado, a gente sente que está desperdiçando o dia. Crescer virou um compromisso com a produtividade. E mesmo os momentos de descanso precisam vir com explicação: é pra aliviar o estresse, é pra estimular a mente, é pra acalmar a ansiedade. Como se a gente não pudesse simplesmente querer pintar um coelhinho porque sim.
Tem dias em que minha cabeça parece uma aba de navegador com 42 guias abertas. E, honestamente, nesses dias tudo que eu queria era desligar o Wi-Fi da alma e colorir uma flor azul. Sem pensar se flor azul existe. Sem precisar me justificar.
Fiquei um tempo ali, olhando os outros títulos da mesa. Havia um chamado Floresta Encantada, outro com o nome Cafuné nas Estações (ok, inventei esse último agora — mas não duvido que exista). Todos com aquela estética entre o fofo e o nostálgico. Não é coincidência. Acho que esses livros estão tentando nos dizer alguma coisa. Algo do tipo: você pode voltar. Não precisa ir tão longe assim de quem você já foi.
O que é ser adulto, afinal? Ir para o trabalho todos os dias? Dirigir um carro? Pagar o plano de saúde e mais 1001 contas? Saber onde fica o extrato do FGTS? Confesso que eu nem sabia o que FGTS significava…
Talvez ser adulto também seja saber quando desacelerar. Quando brincar. Quando permitir o inútil. Quando se encantar com o desenho de uma xícara voadora sem perguntar pra que serve.
Fiquei pensando nas outras formas que a gente encontra pra colorir os dias — e não tô falando só de lápis. Tem quem ouve música leve, quem faz receitas bobas, quem escreve bilhetes com canetas coloridas. Tem quem assiste desenho animado (adoro desenhos animados!). Quem deita no chão da sala com o cachorro. Quem planta suculentas, costura travesseiros em formato de nuvem, ou revisita o próprio caderno da escola só pra lembrar que um dia escreveu com letra redonda.
Tudo isso é uma forma de respirar.
Tudo isso é um jeito de dizer: “me deixa só existir um pouco, sem que isso precise virar algo”.
E se você me perguntar, acho que toda pessoa adulta deveria ter o direito de colorir um porquinho feliz sem precisar de justificativa nenhuma. Talvez, inclusive, a nossa saúde mental dependa mais disso do que de qualquer produtividade milagrosa.
No fim, não comprei o livro. Mas fiquei com vontade de procurar meus lápis antigos. Acho que estão numa gaveta, junto com outras pequenas coisas que fui deixando pra trás sem perceber.
Às vezes, a gente só precisa disso: um cobertor imaginário, uma xícara de chá e um balão que nos tire um pouco do chão.



