Outro dia eu estava reorganizando meus livros. Tirei todos da estante, passei um paninho nos cantinhos e fui empilhando os volumes no chão, tentando criar uma ordem nova que só faz sentido pra mim — uma mistura de cor, tamanho e memória afetiva. No meio do processo, percebi que estava faltando um dos meus preferidos. Um daqueles que me abraçaram em um momento difícil, que me fizeram rir alto no meio da madrugada e me deixaram com um buraco no peito quando a última página chegou.
“Ué, cadê ele?” — pensei em voz alta, enquanto revirava os cantos da estante, como se ele tivesse se escondido por engano atrás de algum outro. Mas aí me lembrei: emprestei. Só não lembro pra quem.
Esse é um clássico na minha vida. Sempre fui de emprestar livros com a mesma facilidade com que ofereço um pedaço de bolo. E não é porque eu não me importo com eles — muito pelo contrário. É justamente porque me importo que eu empresto. Porque acho que livro bom não foi feito pra ficar trancado. Foi feito pra circular, pra ser vivido por mais de uma pessoa, pra deixar saudade em mais de um coração.
Desde pequena tenho essa mania. Quando criança, eu costumava colocar meu nome na primeira página com letra redonda e espaçada. Às vezes até colocava a data. Era o meu jeito de marcar que aquele livro tinha passado pelas minhas mãos, como se fosse uma dedicatória silenciosa pro futuro.
Teve uma vez que emprestei um dos meus livros favoritos pra uma colega da escola. Ela disse que queria muito começar a ler, mas que não tinha nenhum livro em casa. Eu, toda animada, levei no dia seguinte. Fiquei semanas esperando ela comentar alguma coisa sobre a história, mas ela nunca tocou no assunto. Um mês depois, ela mudou de escola e levou meu livro junto.
Na época, eu fiquei chateada. Lembro até de ter chorado um pouquinho, não só pelo livro em si, mas porque aquela era uma história que tinha muito significado pra mim. Mas com o tempo, algo dentro de mim foi mudando. Comecei a pensar: e se aquele livro ficou com ela porque, de alguma forma, era dela que ele precisava? E se, naquele momento da vida, ela precisava daquela história mais do que eu?
Não sei se isso é real ou só coisa da minha cabeça romântica, mas gosto de imaginar os livros que emprestei como pequenos viajantes. Cada um com uma missão especial, indo parar exatamente onde deveria. E se não voltam, é porque ainda estão cumprindo seu papel em outro lugar.
Claro, isso não me impede de sentir uma pontinha de saudade. Tem livros que, quando empresto, já me preparo emocionalmente pra me despedir. Tipo quando você dá tchau pra um amigo no portão sabendo que talvez ele demore a voltar. Mas também tem aqueles que voltam com marcas da leitura do outro: uma dobra na página, uma anotação no canto, uma flor prensada esquecida entre os capítulos. E isso, confesso, é uma das coisas mais lindas pra mim.
Eu gosto de pensar que quando a gente empresta um livro, a gente empresta também uma parte do nosso mundo. Um pouco do que nos faz sonhar, chorar ou sorrir. E isso cria uma conexão silenciosa, mas muito profunda. Mesmo que a pessoa não diga nada depois, mesmo que o livro não volte — a troca já aconteceu. E isso, por si só, já vale a pena.
Ao longo dos anos, fui me descobrindo uma leitora de muitos estilos. Gosto de romances, alguns que classifico como “a cara da Meli”. São aqueles que parecem conversar comigo no meio da noite. Gosto de histórias introspectivas, lentas, que exigem que a gente escute mais do que fale. Mas também gosto de fantasia, de livros que me transportam pra mundos que nem sei se consigo imaginar sozinha. Leio um pouco de tudo, como quem coleciona janelas pra enxergar a vida por outros ângulos.
Às vezes me perguntam qual é meu livro preferido. E, sinceramente, eu não sei. Acho que cada livro foi o meu preferido no momento em que eu o li. Cada um chegou com um motivo, como um amigo que aparece na hora certa — mesmo que eu não tenha percebido isso de imediato.
Hoje, enquanto escrevo esse texto, me pego pensando em todos os livros que já emprestei e nunca mais vi. Às vezes me lembro de um título e sorrio, imaginando por onde ele anda agora. Quem será que está lendo aquele parágrafo que me fez chorar? Quem será que está se apaixonando por aquele personagem que eu nunca consegui esquecer?
Talvez, nesse exato momento, alguém esteja deitado no sofá com um desses livros no colo. E talvez essa pessoa nunca saiba que, anos atrás, ele foi meu livro preferido. E tudo bem. De verdade. Isso me deixa feliz.
No fim das contas, acho que a beleza está nisso: em deixar que as histórias encontrem outros caminhos. Em emprestar sem garantias. Em confiar que o que tocou a gente também pode tocar o outro. E se for pra não voltar, que ao menos tenha feito morada em algum lugar bonito.
A vida, afinal, também é feita de livros que vão e não voltam. Mas as histórias que eles carregam — essas ficam pra sempre com a gente.
O Dia Em Que Eu Saí Para Resolver Uma Coisa… E Voltei Com Cinco
Eu saí de casa com um plano muito claro na cabeça. Muito claro mesmo. Precisava


