O sol da tarde encostava nas folhas com aquele amarelo quente de domingo preguiçoso. Tiago voltou à casa da avó depois de muitos anos. O portão estava do mesmo jeito — verde e meio enferrujado. A varanda, com suas plantas penduradas e a cadeira de balanço, também. Era como se o tempo tivesse parado só ali, naquele pedaço de mundo onde a infância morava.
Ele entrou devagar, como se pisasse na memória.
Depois do café e das histórias repetidas da Dona Nair, Tiago pediu licença e foi até o quintal. Queria ver se o pé de acerola ainda dava frutos. Passou pelo tanque antigo, pelo varal vazio e, perto da mangueira, avistou algo que fez seu peito parar por um segundo.
Era um tratorzinho vermelho. De plástico. Sujo, gasto, com uma das rodas quebradas. Mas ainda de pé, firme, ali na terra.
Tiago se agachou. Pegou o brinquedo com cuidado, como se fosse frágil demais para o presente. Lembrou das tardes em que passava ali, cavando buracos imaginários, levando pedras de um lado pro outro com aquele mesmo trator. Lembrou do primo Lucas, das brigas por causa dos carrinhos, dos dois se sujando até os cabelos. Lembrou da avó gritando: “Vai lavar a mão antes de entrar!”
E, de repente, não era mais um adulto com barba e boletos nas mãos. Era só um menino reencontrando um pedaço do que nunca deixou de ser.
Sentou-se no chão, deixou o brinquedo no colo e ficou ali, em silêncio, ouvindo os passarinhos e o barulho leve das folhas dançando com o vento. Sorriu, sem pressa.
Na saída, Tiago levou o trator com ele. A avó disse que podia. “Essas coisas não servem pra mais nada, né?”, ela comentou.
Mas ele sabia que servia. Servia pra lembrar. Servia pra voltar. Servia pra lembrar quem ele foi — e, no fundo, ainda era.
A Mensagem por Trás do Tratorzinho
À primeira vista, era só um brinquedo velho, sujo e abandonado. Mas o tratorzinho escondia algo maior: ele era uma ponte. Uma daquelas pontes invisíveis que ligam quem somos hoje com quem fomos lá atrás — quando tudo parecia mais simples e mais vivo.
Há algo especial em reencontrar uma parte da nossa infância por acaso. Não é sobre nostalgia pura, nem saudade romântica. É sobre se reconhecer de novo. Perceber que, mesmo depois de tanta correria, tanta mudança, tantos pesos que a vida adulta nos impõe, ainda existe um “eu” lá dentro que só quer brincar um pouco, sentar no chão e imaginar montanhas de terra.
O tratorzinho de Tiago representa o que deixamos de lado com o tempo. Nossas histórias inventadas, a liberdade de se sujar sem culpa, a leveza de fazer algo só porque dá vontade. Coisas pequenas, mas que faziam o dia parecer infinito. E que hoje fazem falta, mesmo que a gente não saiba dar nome.
Muitas vezes, crescemos achando que é preciso deixar tudo pra trás. Que amadurecer é esquecer. Mas não é. Amadurecer, talvez, seja lembrar com mais carinho. É dar espaço pra essas memórias se sentarem ao nosso lado, como amigas antigas que ainda têm muito a nos ensinar.
A infância não é uma fase que termina — ela é um lugar dentro da gente. E quando a gente reencontra objetos, cheiros, sons ou sensações daquele tempo, não é o passado que volta. É a gente que retorna pra casa por uns instantes.
Talvez você também tenha um tratorzinho guardado por aí. Não precisa ser um brinquedo. Pode ser um caderno antigo, uma música que toca e faz o peito encolher, uma comida que te leva direto pra uma cozinha cheia de risos. Preste atenção. Essas pequenas coisas têm o poder de resgatar a parte mais sincera de quem somos.
E quem sabe, ao reencontrar o seu tratorzinho, você também se sente um pouco mais inteiro. Um pouco mais leve. Um pouco mais você.



