Promoção para ganhar um bebê Reborn

Outro dia, voltando pra casa depois de uma manhã corrida — daquelas que deixam a gente meio zumbizada e levemente questionando o sentido da existência — liguei o rádio do carro pra me distrair. Gosto de fazer isso às vezes, principalmente quando não tenho mais energia pra escolher uma música ou quando a playlist já cansou. Deixei em uma estação qualquer, só pra ter alguma voz humana que não fosse a minha consciência me lembrando de prazos.

Foi então que escutei o que, até agora, é a promoção mais inesperada que já ouvi em toda a minha vida. Juro por tudo.

A apresentadora, com aquele tom animado e super leve de quem parece que tomou três cafés antes das 8h da manhã, anunciou:

— Atenção, ouvintes! Tá rolando sorteio de um bebê Reborn aqui na rádio! Isso mesmo! Quer ganhar um bebezinho realista, com roupinha, certidão de nascimento e tudo? É só responder à pergunta: “Por que você quer ganhar um bebê Reborn?” A resposta mais criativa leva o presente pra casa! Mas ó… nada de exageros, hein?

Eu dei uma risada tão sincera que quase parei no semáforo com o carro em ponto morto, só pra digerir o que eu tinha acabado de ouvir.

“Sem exageros”, disse ela. Logo depois de pedir uma resposta criativa sobre por que alguém quer ganhar um bebê que não é bebê, mas que tem cheiro de talco e vem com certidão de nascimento. Assim… como a pessoa não vai exagerar?

Fiquei ali, com os olhos na rua, mas a mente flutuando, imaginando as possíveis respostas:

“Porque a solidão de segunda-feira bate forte e eu preciso treinar meus instintos maternos sem o compromisso de trocar fralda de verdade.”

“Porque eu quero ter uma desculpa legítima pra usar aquele carrinho de bebê que comprei no impulso quando tive um surto minimalista e vendi todos os meus livros.”

“Porque quero dar um susto no meu irmão adolescente deixando o bebê na cama dele com uma cartinha dizendo ‘Parabéns, você é o pai’.”

Mas claro… sem exageros.

Fiquei tentando imaginar qual seria o nível ideal de criatividade contida. Algo do tipo:

“Porque admiro o trabalho artesanal envolvido em uma boneca Reborn e gostaria de tê-la como item decorativo no meu escritório.”

Razoável. Mas não ganharia.

Comecei a pensar na pessoa que teve a ideia dessa promoção. Será que foi um estagiário? Um tiozão do marketing? Alguém que comprou a boneca pela internet e se arrependeu, então decidiu repassá-la via sorteio? E quem julga essas respostas? Existe um jurado de bebês Reborn?

A mente vai longe.

O mais curioso é que aquele momento, apesar de completamente absurdo, me tirou do torpor mental em que eu estava desde cedo. Parei de pensar nas pendências da semana, nos e-mails que ainda não respondi, no texto que empacou no parágrafo três. E fiquei ali, presa no mistério do bebê Reborn e no desafio proposto: ser criativa, mas com limites.

Pensei em como a vida real é cheia dessas pequenas interseções improváveis. Você está apenas tentando sobreviver ao seu dia comum — uma reunião, uma aula puxada, uma dorzinha de cabeça incômoda — e, de repente, uma promoção bizarra no rádio se instala no seu cérebro como uma semente de riso, de curiosidade, de absurdo.

E eu adoro isso.

Tem algo de mágico em quando o cotidiano se desvia levemente da rota esperada. É como se o universo dissesse: “Ei, olha só, nem tudo precisa fazer sentido hoje.”

Cheguei em casa ainda sorrindo. Desliguei o carro, mas a promoção ficou comigo. Fui até minha mesa, liguei o computador, abri o documento que precisava escrever — e nada. Só conseguia pensar no bebê Reborn. E, de algum jeito, esse pensamento me fez bem. Me fez lembrar que nem tudo precisa ser útil, produtivo, relevante ou resolvido. Às vezes, tudo que a gente precisa é de um momento bobo pra lembrar que a vida é também feita de coisas que não se explicam.

Olhando pro meu cantinho de trabalho, reparei nos objetos que ficam espalhados pelo quarto: uma vela que nunca acendo, uma pedrinha lisa que achei num parque e que gosto de segurar quando estou pensando, um boneco do Totoro (presente de uma amiga), um bloquinho com frases aleatórias e um clipe de papel em forma de coração que alguém me deu há séculos. Nenhum desses itens tem função prática. Mas todos eles me lembram de algo leve. De algo que, mesmo em dias cheios, me ancora.

Talvez o bebê Reborn seja isso pra alguém. Uma âncora estranha, mas eficaz. Uma companhia silenciosa. Um presente engraçado que virou história. E quem sou eu pra julgar?

A verdade é que a gente nunca sabe o que vai ficar na memória de um dia comum. Às vezes é uma conversa no elevador. Às vezes é uma música que toca do nada. E às vezes é uma moça do rádio dizendo “nada de exageros” enquanto oferece uma boneca hiper realista como prêmio.

E você aí achando que seu dia ia ser normal.

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