Durante dias, ela permaneceu em silêncio dentro da gaveta. Esquecida entre papéis antigos, tickets de cinema e contas pagas. A caneta azul de corpo transparente, dessas comuns de papelaria, que um dia escreveu cartas longas, anotações apressadas e até um ou dois poemas sem pretensão, agora jazia imóvel, como se não tivesse mais nada a dizer.
Mas naquela tarde de sábado, Júlia abriu a gaveta em busca de algo para anotar um pensamento que, se não fosse registrado, escaparia. Foi por acaso. Ou por um daqueles acasos cheios de intenção que o cotidiano às vezes reserva.
Ela pegou a caneta, hesitante, e riscou um pedacinho de papel ao lado. A tinta demorou para vir. Júlia já ia desistir, quando a ponta finalmente deslizou: uma linha azul, meio trêmula, mas viva.
Era só isso. A caneta voltou a escrever.
Mas Júlia soube — naquele instante mínimo — que aquilo era também sobre ela.
Porque de vez em quando a gente também se sente assim: como se tivesse secado, como se já não tivesse mais o que dizer ou oferecer. Como se o tempo tivesse passado demais. Como se estivéssemos guardados, esquecidos, entre memórias e obrigações.
Às vezes, sinto que também sou essa caneta azul esquecida. Fico em silêncio por dias, duvidando se ainda há palavras dentro de mim, se ainda consigo tocar alguém com elas. E então, em uma tarde qualquer, algo desperta. Pode ser uma lembrança, um gesto pequeno, uma história sem grandes pretensões… e de repente, estou aqui, escrevendo de novo.
Gosto de pensar que a gente nunca está realmente “seco”. Só estamos em pausa, esperando o momento certo para deixar a tinta correr.
Talvez a gente precise se permitir essa pausa. Porque o silêncio também é parte do caminho. Ele não é ausência — é preparação. É no silêncio que as palavras nascem antes de virarem som. É no escuro da gaveta que a caneta descansa, se enche de tinta nova, mesmo que a gente não perceba.
E, às vezes, recomeçar não exige um grande gesto. Não precisa ser épico. Às vezes, basta um pensamento solto, uma curiosidade qualquer, um sentimento que ainda não tem nome — e isso já é suficiente para nos lembrar de que estamos vivos. De que ainda tem algo pulsando aqui dentro.
Outro dia, encontrei uma anotação antiga minha: “O cansaço também pode ser uma forma de cuidado.”
Não lembro o contexto, mas sei que fazia sentido. A gente se cobra tanto para estar sempre produtivo, criativo, presente… mas nem tudo floresce o tempo todo. Algumas sementes precisam do tempo certo, da terra certa, da estação certa.
Júlia, naquele sábado, não estava procurando inspiração. Ela só queria anotar um pensamento.
Mas acabou reencontrando uma parte dela mesma.
E eu penso: quantas vezes o reencontro vem assim — por descuido, por acaso, por ternura?
Já deixei de escrever por medo de não ser suficiente. Já me calei por insegurança, achando que o que eu tinha para dizer era bobo demais, simples demais. Mas hoje eu entendo: às vezes, é no simples que mora o que mais toca. Às vezes, é numa frase escrita com caneta comum que alguém encontra o abrigo que precisava.
Não é sobre o que a gente tem a oferecer ao mundo. É sobre a coragem de continuar se oferecendo — mesmo quando duvida. Mesmo quando a tinta falha um pouco no começo. Mesmo quando a linha sai trêmula.
Se você estiver guardado em alguma gaveta emocional, achando que não tem mais nada a oferecer… saiba que isso não é verdade. Sua história ainda tem muito a dizer. E talvez, quando menos esperar, você também encontre a coragem de se colocar no papel outra vez — do seu jeito, no seu tempo.
A caneta não escolhe o que escrever. Ela apenas responde quando alguém acredita nela o suficiente para insistir um pouco mais.
E a gente também é assim.
Você pode ser essa linha azul, recém-desenhada, ainda incerta — mas verdadeira. Você pode estar voltando agora, aos poucos, sem alarde. E isso já é muito.
Tem gente que reaparece como quem nunca foi embora. Tem palavras que voltam como se sempre estivessem ali, esperando que a gente abrisse espaço.
Talvez hoje não seja o dia de escrever um livro inteiro. Mas talvez seja o dia de riscar um pedacinho de papel. E quem sabe isso já seja tudo que o coração precisava.
A tinta voltou. E isso é o começo de tudo.



