Hoje a saudade me visitou. Não sei bem de quê. Ou de quem. Mas veio assim, do nada, como uma brisa que entra pela janela sem pedir licença.
Estava lavando uma xícara quando ela chegou. Isso mesmo — lavando uma xícara. Nem música triste, nem carta antiga, nem cheiro de infância no ar. Só o som da água escorrendo, um silêncio bom pela casa e um pensamento que me escapou sem querer. Pensei em mim, alguns anos atrás. Acho que era 2017. Eu usava outro corte de cabelo, sonhava com outras coisas e achava que sabia menos do que sei hoje — embora, olhando bem, talvez soubesse mais.
Me veio uma cena muito específica: eu sentada no chão do meu quarto antigo, com as pernas cruzadas, um caderno no colo e uma caneta azul na mão. A luz da tarde entrava meio alaranjada pela cortina e fazia um desenho bonito na parede. Eu escrevia qualquer coisa. Nem sei se era um poema, um diário ou uma ideia de história. Só sei que era sincero. Era meu jeito de existir no mundo, sabe? Preencher uma folha em branco com o que eu não sabia dizer em voz alta.
Essa imagem me atravessou com um carinho esquisito. Como se dissesse: “Ei, você se lembra de mim?”
Lembrei. E fiquei ali, com a mão molhada no sabão, sentindo essa saudade que não tem nome.
É engraçado como tem lembranças que grudam na gente sem pedir permissão. Às vezes, são cenas tão simples que nem fariam falta se desaparecessem. Mas, por algum motivo, ficam. E ficam porque a gente viveu com o coração aberto. Mesmo sem perceber. Mesmo achando que era só mais um dia.
Tem uma que sempre volta pra mim: eu deitada no sofá da casa da minha avó, assistindo TV depois do almoço, com uma coberta velha que cheirava a amaciante. O ventilador fazendo aquele barulho hipnótico e ela vindo da cozinha com um pedaço de bolo quente no prato. Eu nem gostava tanto daquele bolo, mas comia só pra fazer companhia. E ela sorria. Às vezes, falava sozinha enquanto mexia o açúcar no café.
Não teve nada de extraordinário naquele dia. Mas meu coração guardou como se fosse um tesouro. Talvez porque tenha sido um momento em que me senti segura. Acolhida. Vista.
E é isso que a saudade me lembra: que o que marca a gente, no fundo, não são os grandes acontecimentos, mas os pequenos gestos que tocaram a alma em silêncio.
Às vezes, eu me pego sentindo falta de versões antigas de mim mesma. Aquela Melissa que se sentia perdida, mas também muito cheia de esperança. Que ainda acreditava em finais felizes sem tanto medo do meio do caminho. Que colecionava recortes de revista com frases bonitas e escrevia cartas que nunca mandava. Que chorava por bobeira e depois ria, como se a vida fosse mesmo feita de altos e baixos — e tudo bem.
Não é que eu não goste de quem sou hoje. Pelo contrário. Me orgulho do que construí, do que aprendi, do que escolhi deixar para trás. Mas tem dias em que essa saudade doce aparece. Saudade de mim. Da leveza. Da curiosidade. Da coragem de tentar mesmo sem saber como.
É como se dentro de mim morassem várias Melissas, em diferentes fases, e de vez em quando uma delas bate na porta querendo lembrar que ainda existe.
Enfim, escrevo tudo isso aqui no Cantinho da Meli porque sinto que esse espaço me permite ser assim: meio nostálgica, meio perdida, meio boba. Aqui eu não preciso ter todas as respostas. Nem parecer forte o tempo todo. Posso só contar o que senti. Posso abrir a gaveta da memória e dividir com você as coisas que encontro lá dentro — mesmo que não façam muito sentido.
E quer saber? Eu gosto disso.
Gosto de imaginar que você, que está lendo agora, também tem suas saudades sem motivo. Também se lembra de detalhes pequenos que o tempo não apagou. Talvez tenha uma música que faz seu coração apertar de um jeito bom, ou uma fotografia antiga que você guarda só pelo sentimento que carrega.
Talvez, assim como eu, você também sinta vontade de voltar no tempo de vez em quando — não pra mudar nada, mas só pra ficar um pouquinho ali, sentindo de novo o que sentiu.
Depois que terminei de lavar a xícara, fui até a estante e peguei um caderno antigo. Um daqueles que a gente esquece, mas nunca joga fora. Folheei devagar, como quem reencontra um pedaço esquecido de si. As palavras estavam todas lá. Com erros, com rabiscos, com emoções mal explicadas. Mas estavam. E isso me deu uma paz que eu nem sabia que precisava.
Às vezes, a gente não precisa entender tudo. Nem curar toda saudade. Basta acolher.
Acolher essa parte da gente que sente sem saber por quê. Que guarda lembranças bobas como quem guarda preciosidades. Que vive e ama com intensidade — mesmo que em silêncio.
Se você também sente essas coisas, saiba que você não está só.
E sempre que quiser, pode voltar. A gente pode conversar mais. Sobre tudo, ou sobre nada. Sobre lembranças, saudades ou só sobre como foi o seu dia.
Eu estarei aqui. De coração aberto.


