Quando eu li Matilda (tarde demais — ou no momento certo)

Essa é uma daquelas histórias que todo mundo já leu (ou pelo menos já ouviu falar) em algum momento, mas eu nunca li quando era criança. Ler Matilda já adulta foi como reencontrar uma parte de mim que eu não sabia que estava perdida. A sensação foi agridoce: doce porque havia beleza ali, amarga porque me perguntei onde essa história estava quando eu mais precisei. Mas a verdade é que talvez eu só estivesse pronta para acolhê-la agora. Às vezes, não é a idade que define o momento certo para uma leitura — é o coração.

🌿 A criança que fui (e que talvez ainda seja)

Matilda é uma garotinha extraordinária que encontra nos livros o seu refúgio. E, apesar de ser tratada com descaso pela família, ela descobre seu próprio valor aos poucos — com inteligência, sensibilidade e coragem. Ler sobre ela me fez lembrar da menina quieta que eu fui. Aquela que observava tudo ao redor, mas tinha dificuldade de se expressar. Que sentia demais, mas não sabia o que fazer com tanto sentimento. Que ansiava por um lugar seguro, mesmo sem saber dar esse nome.

Eu não tinha superpoderes como a Matilda, mas me identifiquei profundamente com o seu jeito de buscar sentido nas palavras. E com a forma como ela se agarrava aos livros como se eles fossem a única coisa firme num mundo instável. Talvez porque, no fundo, eu também sempre quis acreditar que, mesmo quando tudo parece difícil, existe uma forma de resistir — nem que seja sonhando em silêncio.

💛 A senhorita Honey que todos nós merecemos

Uma das partes mais emocionantes da história, para mim, é a relação de Matilda com a senhorita Honey. Não porque seja perfeita ou sem dor — mas porque é construída sobre afeto e cuidado verdadeiro. A senhorita Honey não precisa ser grandiosa. Ela só precisa estar lá. Escutar. Acolher. Acreditar. E isso, às vezes, é mais poderoso do que qualquer gesto épico.

Ao ler essa parte do livro, senti um nó na garganta. Pensei nas pessoas que foram minha “senhorita Honey” em momentos inesperados. Às vezes um professor, às vezes uma amiga, às vezes uma simples conversa que durou minutos, mas ficou guardada por anos. E também pensei em quantas vezes eu mesma tentei ser isso para alguém — um espaço seguro. Um olhar gentil.

📦 A bagagem invisível que levamos da infância

O que mais me tocou em Matilda foi perceber como nossa infância continua ecoando dentro da gente mesmo quando crescemos. Às vezes, achamos que superamos certas dores ou que esquecemos certas faltas. Mas basta um livro como esse para que tudo volte — não como uma ferida, mas como um lembrete.

Ler Matilda me fez perceber que ainda carrego perguntas de criança. E que tudo bem não ter todas as respostas. Que ainda busco segurança em pequenas coisas, e que às vezes a parte mais corajosa de mim é também a mais silenciosa. Não é fácil admitir que algumas partes da nossa infância não foram tão doces quanto gostaríamos. Mas, ao mesmo tempo, é libertador reconhecer que somos feitos disso também — e que podemos transformar tudo isso em afeto.

🌈 Ler com o coração de agora (e o olhar de antes)

Eu li Matilda com os olhos de uma adulta e com o coração daquela menina que ainda mora em mim. E acho que isso é o que torna essa leitura tão especial. Porque a história não fala só com crianças — ela fala com qualquer um que já se sentiu pequeno demais para o mundo. Com qualquer um que já procurou nos livros uma forma de existir.

E foi aí que entendi que talvez eu não tenha lido Matilda tarde demais. Talvez eu tenha lido exatamente quando precisava. Quando estava pronta para chorar por aquela criança que fui. Quando finalmente conseguia olhar para ela com carinho, e não com julgamento. Quando entendia que o que ela sentia — medo, confusão, esperança — era legítimo. Era bonito. Era real.

🪞 A Matilda dentro da Melissa

Se eu tivesse lido Matilda na infância, teria me sentido menos sozinha? Talvez. Mas hoje, lendo com a bagagem que tenho, sinto que ganhei algo igualmente valioso: um reencontro. Uma chance de olhar para trás com ternura, de cuidar da menina que fui. De deixá-la sentar ao meu lado enquanto leio e dizer: “eu te entendo agora”.

E não tem nada mais bonito do que isso. Porque, no fundo, todos nós estamos tentando dar voz às nossas partes caladas. Todos nós estamos tentando lembrar que, mesmo pequenos, já tínhamos mundos dentro da gente.


E você?

Talvez você tenha lido Matilda na infância. Talvez, como eu, só tenha conhecido essa história depois de grande. Ou talvez ainda não tenha lido — e esse seja seu sinal para começar. Seja qual for o caso, eu te convido a refletir:

Que histórias da sua infância (ou sobre ela) ainda ecoam dentro de você? Existe alguma parte sua que merecia ser ouvida com mais carinho?

Me conta nos comentários. Vou adorar saber como essas palavras chegaram até você.

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