Resenha – Lady Bird: A Hora de Voar

Algumas histórias parecem simples à primeira vista. Adolescente rebelde, mãe controladora, último ano do colégio. Mas às vezes é justamente no simples que mora o mais profundo. Lady Bird – A Hora de Voar é assim. Um filme que parece leve, mas que vai desfiando nossos próprios nós com jeitinho. Não grita. Só toca. E, se a gente permitir, toca fundo.

Lady Bird é o nome que Christine escolheu pra si. Um nome inventado, um gesto de autonomia. Porque ela ainda não sabe bem quem é, mas já sente que precisa ser outra coisa. Alguém além do que esperam dela. Alguém além da filha, da aluna, da menina de Sacramento. Ela quer mais — mais do mundo, mais de si, mais de tudo. E nesse desejo, tão familiar a quem já teve 17 anos, começa uma história que não é sobre grandes acontecimentos, mas sobre os pequenos momentos que moldam quem a gente se torna.

A beleza do filme mora nos detalhes. Na conversa atravessada no carro. Na primeira decepção amorosa. No vestido emprestado. Na amizade que muda. No não-dito que pesa. Na sensação constante de não se encaixar, de estar sempre tentando ser algo que ainda não se sabe o que é.

A relação com a mãe

O coração pulsante da história é a relação entre Lady Bird e sua mãe, Marion. Uma relação feita de amor e colisão. Amor que cuida, mas também fere. Amor que exige, que não sabe demonstrar ternura com leveza. Marion quer o melhor pra filha, mas tem dificuldade de separar esse desejo do controle. Lady Bird, por outro lado, quer ser amada do seu jeito — sem que isso signifique se moldar às expectativas alheias.

Nenhuma das duas está completamente certa ou errada. São só duas mulheres tentando se encontrar uma na outra, com os desencontros inevitáveis de quem ama, mas não sabe muito bem como amar sem apertar demais. A atuação da Saoirse Ronan (Lady Bird) e da Laurie Metcalf (Marion) é de uma sensibilidade absurda — cada olhar, cada silêncio, cada frase dita com raiva ou carinho carrega camadas de significado.

Crescer não é fuga, é processo

O filme acompanha Lady Bird no seu último ano de colégio, na tentativa de sair de Sacramento para estudar em Nova York — ou “em qualquer lugar com cultura”, como ela diz. É esse desejo de partir, de recomeçar, que guia muitas de suas ações. Mas o que Lady Bird mostra, com sutileza, é que crescer não é só ir embora. Crescer é olhar pra trás com outros olhos. É perceber que até o que a gente queria deixar pra trás tem valor. Que algumas raízes, mesmo invisíveis, continuam ali.

Há um momento quase no fim do filme que me deixou com um nó na garganta. Não vou contar o que acontece, mas posso dizer que é ali que Lady Bird entende que liberdade não é ausência de vínculos. É presença consciente. É poder escolher — inclusive escolher voltar, ou se lembrar com ternura do que parecia banal.

Greta Gerwig e o cuidado com os personagens

Greta Gerwig, que escreveu e dirigiu o filme, tem um olhar muito delicado pra adolescência, pra maternidade, pra oscilação emocional de quem está tentando encontrar o próprio caminho. Ela não julga seus personagens. Ela só os observa. E, ao fazer isso, deixa a gente se enxergar também. Porque quem nunca achou que era diferente demais? Quem nunca teve vergonha da própria família? Quem nunca disse algo duro pra quem ama — e se arrependeu depois?

A forma como Greta conduz a narrativa é leve sem ser rasa, e profunda sem ser pesada. A trilha sonora é sutil, o ritmo é fluido, e a ambientação em Sacramento — cidade natal da própria diretora — traz uma sensação de familiaridade que acolhe. Dá pra sentir o cheiro das árvores secas, o calor abafado, o tédio e o carinho disfarçado em cada esquina.

A beleza do cotidiano

Uma das maiores forças do filme é que ele não depende de grandes reviravoltas. Ele confia na força do cotidiano. Na beleza escondida nas conversas entre amigas, nas pequenas traições, nas confissões trocadas em camarins escolares, nos olhares que dizem mais do que os gestos. É um filme de descobertas sutis. E, talvez por isso mesmo, tão poderoso.

Lady Bird é imperfeita. Marion também. E isso torna ambas incrivelmente humanas. O filme não força redenções nem vilaniza ninguém. Ele entende que a vida é feita de relações ambíguas. De gestos de amor que machucam. De palavras duras ditas por insegurança. De mágoas que escondem carinho.

Pra quem é esse filme

Se você já se sentiu deslocado, incompreendido, pequeno demais pros próprios sonhos — esse filme é pra você. Se já quis fugir de casa, mesmo amando quem estava lá dentro. Se já se arrependeu de uma briga, mas não soube pedir desculpas. Se já tentou descobrir quem era no meio do barulho do mundo… então você já foi, de alguma forma, Lady Bird.

Esse filme não oferece respostas fáceis. Mas oferece um abraço. E, às vezes, é só isso que a gente precisa: sentir que não está sozinho nessa tentativa confusa e bonita de crescer.


Depois que vi esse filme pela primeira vez, fiquei dias pensando em todas as vezes que fui a Lady Bird. Em todas as vezes que também fui a Marion. E em como é difícil, às vezes, amar alguém que ainda está tentando descobrir quem é.

Se você já assistiu a esse filme, me conta: qual cena ficou com você? E se ainda não viu, talvez agora seja a hora.

“Lady Bird – A Hora de Voar” está disponível na Netflix. Tenho certeza de que esse filme vai te pegar de surpresa. Da mesma forma que me pegou também.

Se você tiver livros ou filmes que te fizeram ver sua própria história com outros olhos, me indica nos comentários. Vai ser lindo continuar essa troca por aqui.

É isso, até a próxima 💙

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