Existe uma versão de mim que sonha em cozinhar como nos filmes. Aquela pessoa que entra na cozinha tranquila, coloca uma música suave, separa todos os ingredientes em potinhos bonitos, corta tudo certinho, segue a receita com calma e, no final, apresenta um prato lindo, fumegante, digno de foto. Na minha cabeça, essa Meli existe. Ela mora dentro de mim. O problema é que, na prática, quem aparece na cozinha quase sempre sou eu mesma: confusa, apressada, improvisadora e levemente desesperada.
Tudo começa com uma ideia inocente. Normalmente surge assim: “Hoje eu vou cozinhar.” Não “esquentar algo”. Não “pedir comida”. Cozinhar. De verdade. Algo feito por mim. Algo caseiro. Algo adulto. Nesses momentos, eu me sinto extremamente madura, responsável e pronta para a vida. Abro a geladeira com esperança. Fecho com dúvida. Abro de novo, como se os ingredientes fossem mudar magicamente. Spoiler: não mudam.
Aí começa a fase da negociação interna. Eu olho para os ingredientes disponíveis e tento convencê-los a virar uma receita. Um tomate meio cansado, um resto de arroz, um ovo solitário, um pedaço de queijo que já viveu dias melhores. Na minha cabeça, isso pode virar um prato incrível. Na realidade, vira um experimento.
Depois vem a parte da receita. Porque sim, eu tento seguir receitas. Eu abro o celular, pesquiso “receita fácil e rápida”, “receita com poucos ingredientes”, “receita para quem não sabe cozinhar”. Escolho a que parece mais possível. Leio rapidamente. E esse já é meu primeiro erro. Porque eu nunca leio tudo antes. Eu começo animada e vou descobrindo os problemas no meio do caminho.
É sempre assim: estou lá, toda confiante, quando percebo que falta algum ingrediente essencial. Algo como: fermento, creme de leite, farinha, paciência… Nesse momento, eu penso: “Dá pra substituir.” E quase sempre dá. Nem sempre fica bom. Mas dá.
Na minha cozinha, colher de sopa é “mais ou menos isso aqui”. Xícara é “esse copo que eu achei”. Uma pitada é “confia em mim”. Tempo no fogo é “até eu achar que tá pronto”. Termômetro emocional, não culinário. Eu cozinho no sentimento.
Enquanto isso, a cozinha vai se transformando. Começa organizada. Termina parecendo cenário de guerra. Louça espalhada, bancada molhada, casca de cebola em lugares misteriosos, farinha que surgiu do nada. Eu nem sei como isso acontece. É rápido. É intenso. É artístico, de certa forma.
E sempre tem o momento do pânico. Aquele em que eu olho para a panela e penso: “Isso não era pra estar assim.” Pode estar queimando. Pode estar muito mole. Pode estar seco. Pode estar estranho. Pode estar tudo ao mesmo tempo. Nesse momento, eu fico parada, encarando, esperando uma resposta do universo. Às vezes, ele responde. Às vezes, não.
Já teve vez de eu ligar o fogo errado. De esquecer o sal. De colocar sal demais tentando compensar. De quase incendiar uma frigideira. Até criei pratos que nunca mais consegui reproduzir. A cozinha comigo é imprevisível, hein? 😂
Mas sabe de uma coisa? Mesmo com todos os erros, eu amo cozinhar. Amo porque é um espaço em que eu posso tentar sem julgamento. Ninguém espera que eu seja uma chef. Eu só preciso ser eu. Errando, rindo, aprendendo.
Cozinhar virou, pra mim, um jeito de cuidar. De mim e dos outros. Quando eu preparo algo, mesmo simples, eu coloco ali um pedacinho de carinho. Pode ser um macarrão básico, um bolo meio torto, um arroz improvisado. Tem amor ali. Tem intenção. Tem presença.
Teve dias em que cozinhar foi meu refúgio. Quando eu estava ansiosa, confusa, sobrecarregada, ir pra cozinha me ajudava a organizar a mente. Cortar legumes. Mexer panela. Sentir cheiro de comida pronta. Tudo isso me trazia pro agora.
E teve dias em que cozinhar foi um desafio enorme. Quando eu estava sem energia, sem vontade, sem foco. Nesses dias, só o fato de tentar já era uma vitória. Mesmo que terminasse em sanduíche. Mesmo que virasse miojo. Mesmo que eu desistisse no meio.
Hoje, eu entendo que a Meli cozinheira não é sobre perfeição. É sobre processo. Sobre tentativa. Sobre autonomia. Sobre descobrir aos poucos o que eu gosto, o que funciona pra mim, o que dá certo no meu tempo.
Eu ainda erro. Muito. Ainda improviso demais. Ainda faço bagunça. Ainda me surpreendo quando algo dá certo. Ainda tiro foto quando o prato fica bonito, como se fosse um evento raro. Mas agora eu me respeito mais nesse processo. Não me comparo tanto. Eu celebro pequenas vitórias. Um arroz soltinho. Um tempero equilibrado. Um bolo que cresceu.
Na minha cozinha, não tem estrela Michelin. Mas tem história. Tem tentativa. Tem aprendizado. Tem risada. Tem música tocando no fundo. Tem eu conversando sozinha. E, principalmente, tem amor nos detalhes.
E, no fim, acho que é isso que importa.
Não é cozinhar como nos filmes. É cozinhar como na vida real. Com erros. Com improvisos. Com afeto 💛🍳✨

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